O meu filho é intolerante à lactose, e agora?

AE vs intolerante lactose | Auchan&Eu

Para qualquer cuidador ou pai torna-se preocupante e desafiante o facto de perceber que momentaneamente o seu filho começou a ter sintomas pouco específicos e sem uma causa aparente.

Em primeira instância, deve acompanhar o seu filho ao médico para que seja confirmado o diagnóstico de intolerância.

A intolerância à lactose, segundo a Sociedade Portuguesa de Gastroenterologia, ocorre em cerca de 1/3 da população portuguesa, causando problemas gastrointestinais, que poderão ser condicionantes nas atividades diárias.

A lactose é um açúcar presente nos laticínios, composto por duas moléculas (glicose e galactose). Para que a lactose seja digerida, o organismo produz lactase (enzima que quebra a ligação entre a glicose e a galactose), possibilitando a absorção da lactose fracionada para a corrente sanguínea.

Frequentemente, a intolerância à lactose é confundida com a alergia à proteína do leite de vaca. Os sintomas são semelhantes, no entanto, o procedimento é distinto. A intolerância à lactose deve-se à diminuição total ou parcial da produção de lactase e consequente dificuldade na digestão da lactose, presente nos laticínios, incluindo o leite materno. Enquanto que a alergia à proteína do leite de vaca, ocorre somente após a ingestão do leite de vaca e dos seus derivados. A alergia apresenta sintomas momentâneos, enquanto que a intolerância poderá provocar sintomas, 30-60 minutos após a ingestão de alimentos.

Existem vários tipos de intolerâncias:

  • primária: dividindo-se em três categorias – congénita (muito rara, em que os bebés nascem sem a capacidade de “fracionar” a lactose, devendo ser feito o diagnóstico à nascença para evitar sintomas graves), adquirida (muito frequente, caracteriza-se pela perda da expressão da enzima depois do desmame, podendo ocorrer na primeira infância ou em adulto) e do desenvolvimento (deficiência transitória na produção de lactase, que ocorre nos bebés prematuros, sendo recomendada a exposição à lactose de modo a contribuir para a produção da enzima).
  • secundária: situação transitória provocada por uma patologia gástrica e/ou intestinal, que provoca diarréia e possíveis feridas, dificultando a absorção da lactose por um período de tempo.

Quando a lactose não é digerida e hidrolisada no intestino delgado, passa para o cólon (intestino grosso), local onde as bactérias degradam alguma lactose, produzindo hidrogénio. A lactose restante capta água para dentro do cólon, sendo que o gás e a água em demasia contribui para os seguintes sintomas:

  • Bebés: choro incontrolável depois de mamar; diarreias; prisão de ventre; gases e cólicas intensas
  • Crianças: cólicas intensas; diarreias; flatulência; náuseas e inchaço abdominal

O grau de intolerância e a sintomatologia varia consoante a sensibilidade individual, a frequência e a quantidade de lactose ingerida.

Em caso de suspeita de intolerância à lactose na sua criança, em que se verificam vários sintomas, é fundamental consultar um profissional de saúde, antes de excluir o grupo alimentar dos laticínios.

A exclusão destes poderá comprometer o crescimento, o desenvolvimento ou o ganho de peso da criança. Visto que, este grupo alimentar contém proteínas de alto valor biológico e uma riqueza em vitaminas e minerais, nomeadamente vitamina D, vitamina B12 e cálcio, portanto, são excelentes aliados no crescimento e manutenção da saúde óssea, muscular e da pele.

Portanto, torna-se essencial que somente após o diagnóstico, sejam reduzidos ou eliminados os alimentos com lactose e substituídos por fontes desses nutrientes.

Para facilitar o seu dia-a-dia e o da sua crianças sugerimos as seguintes estratégias:

  • Nos primeiros 6 meses de vida recomenda-se uma alimentação exclusivamente através da amamentação (leite materno ou, na impossibilidade, opte pelas fórmulas infantis). No caso dos intolerantes à lactose, se o grau de sensibilidade for baixo, a mãe pode amamentar, mas não deve consumir alimentos com lactose. Se a sensibilidade à lactose for elevada, deve excluir o leite materno e optar por uma fórmula infantil sem lactose, adequada à idade.
  • A partir dos 6 meses, inicia-se a diversificação alimentar, de forma a suprir as necessidades do bebé, tornando-se necessária a introdução de novos alimentos. O período de amamentação deve reduzir, contudo acompanha a diversificação alimentar e a introdução à dieta familiar (até aos 12-24 meses). Se o bebé tolerar o leite materno, a mãe pode amamentar, mas não deve consumir alimentos com lactose. No caso do bebé não tolerar o leite materno, deve optar pela fórmula infantil de leite de vaca sem lactose, adequada à idade ou fórmula infantil à base de proteína isolada de soja.
  • A partir dos 12 meses e à medida que a criança vai crescendo e introduzindo os novos alimentos, pode introduzir os alimentos sem lactose, que estão devidamente identificados e destacados nas embalagens, sendo que deve oferecer alimentos variados e equilibrados nutricionalmente, sem adição de açúcares, de gorduras saturadas e trans.
  • Na hora das compras poderão surgir várias dúvidas, por isso sugere-se que elabore uma lista de compras; faça uma leitura cuidada dos rótulos alimentares, principalmente da lista de ingredientes, atente a estes termos que identificam a presença de lactose: “soro de leite”, “derivados do leite” e “leite em pó”, além de verificar a presença de alergénios e as alegações nutricionais descritas nas embalagens.
  • Escolha os laticínios sem lactose (leite, queijo creme, queijo flamengo, queijo fresco, natas sem lactose) ou versões vegetais, como é o caso das bebidas vegetais, dando preferências às sem adição de açúcar e enriquecidas em cálcio e vitamina D, sendo a bebida de soja a mais semelhante nutricionalmente ao leite de vaca.
  • Se a criança tiver uma menor sensibilidade à lactose, poderá não tolerar o leite, mas conseguirá consumir derivados, como iogurtes e queijos. Os iogurtes possuem bactérias que contribuem para o fracionamento da lactose presente no alimento, apresentando maior digestibilidade da mesma. O queijo, principalmente o curado, dado ao processo de fermentação, possui um teor de lactose quase residual. O mesmo não se verifica em queijos pouco curados/ fermentados, como o queijo fresco e o requeijão. Além disso, se a criança possuir elevada sensibilidade, deverá evitar estes alimentos ou optar por versões sem lactose.
  • A partir do momento que o processo de diversificação alimentar termina e a criança já come tudo, existem outras alternativas fornecedoras de cálcio e vitamina D, como os vegetais de cor verde escura (agrião, espinafres, couve, nabiça …) que podem ser facilmente oferecidos à criança em sopas, purés de legumes ou como acompanhamento; os peixes gordos (salmão, cavala, sardinhas e outros peixes pequenos), o marisco, o ovo, os frutos oleaginosos (amêndoa, avelã …) e as leguminosas (grão, feijão, soja…).
  • Os nutrientes complementam-se e, por isso, podem aumentar ou diminuir a absorção de outros. Os oxalatos presentes nos vegetais de cor verde escura e leguminosas podem contribuir para a diminuição da absorção de cálcio. Assim, recomenda-se que vá variando nos vegetais e leguminosas e que não estejam na mesma refeição que os alimentos fornecedores de cálcio.
  • A lactose está presente em muitos outros produtos além dos laticínios, visto que qualquer alimento que contenha leite na sua composição pode conter lactose. Tenha especial cuidado com papas lácteas, bolachas, conservas, molhos industrializados, charcutaria, achocolatados, barras de cereais. Além dos alimentos preparados fora de casa (quer processados, quer comprados em estabelecimentos de restauração). Nesse sentido, é imprescindível a leitura atenta dos rótulos e dos ingredientes, se possível prefira confecionar em casa e em caso de dúvida, não permita que a criança consuma ou, se consumir, deve fazê-lo nas menores quantidades possíveis.

Sugestão de Ementa sem lactose

Pequeno-almoço

Meio da manhã

Almoço

Lanche

Jantar

Porções devem ser adequadas às necessidades e à idade da criança.
Referências bibliográficas:
nutricionista daniela cacao | Auchan&Eu

Daniela Cação
Nutricionista Auchan
Membro da Ordem dos Nutricionistas Nº 4295N