A Diabetes Mellitus é uma doença metabólica crónica que ocorre quando o pâncreas não produz insulina (hormona reguladora do açúcar no sangue) suficiente ou quando o corpo não consegue utilizar eficazmente a insulina que produz. (1) Consequentemente, ocorrem aumentos drásticos de glicemia (concentração de glicose no sangue) designado por hiperglicemia ou redução desses valores (hipoglicemia).
Existem dois tipos de diabetes prevalentes nas crianças:
- Diabetes Mellitus tipo 1: tipologia mais frequente em crianças, adolescentes e jovens, e aumenta cerca de 3% a cada ano, particularmente em idades inferiores a 5 anos. Neste tipo de diabetes, há uma incapacidade súbita do pâncreas produzir insulina, o que se traduz numa dependência da administração da insulina. Este processo ocorre devido a uma anomalia do sistema imunitário que ataca e destrói partes do próprio organismo. (2)
Sintomas: instalam-se rapidamente desde a infância, nomeadamente poliúria (vontade constante de urinar), polidipsia (boca seca e sede constante), polifagia (aumento do apetite) e perda de peso, isto porque, quando há redução da produção de insulina origina má absorção de glicose no sangue, e portanto, há diminuição da produção de energia, e consequentemente perda de peso e aumento de apetite. O agravamento dos sintomas e a dificuldade no controlo glicémico podem provocar complicações do foro oftalmológico, cardiovascular, renal, e com o aumento da gravidade no limite, poderá potenciar dificuldades no desenvolvimento. Além disso, as crianças são mais sensíveis à falta de insulina do que os adultos, por isso, apresentam maior risco de desenvolver cetoacidose diabética, que ocorre quando a insulina é insuficiente, há falta de glicose nas nossas células e há produção de corpos cetónicos que são utilizados como fonte de energia alternativa e que provocam efeitos adversos como náuseas e vómitos, e se tardiamente tratada, perda de consciência e coma diabético.
Tratamento: A administração de insulina é a principal via de tratamento. A dose de insulina a administrar depende da glicemia, alimentação e atividade física, e ainda deve ser complementada pela adoção de um estilo de vida saudável (alimentação equilibrada e prática de exercício físico).
- Diabetes Mellitus tipo 2 é o mais relacionado com o estilo de vida, em particular, com uma alimentação desequilibrada (rica em hidratos de carbono simples e gorduras saturadas e pobre em hidratos de carbono complexos, fibra e proteína) e com o sedentarismo. Por isso, este é um tipo de diabetes mais predominante nos adultos, mas que tem surgido com maior frequência nas crianças. Este aumento está relacionado com a alteração de estilos de vida que têm levado a alarmantes valores de excesso de peso (29,6%) e, particularmente, de obesidade infantil. Este tipo de diabetes é caracterizado pela redução gradual da produção de insulina ou pela incapacidade do corpo em a utilizar (resistência à insulina), sendo necessário a implementação de medicamentos para se atingir o controlo glicémico.
Os sintomas dos dois tipos de diabetes são semelhantes, por isso, nem sempre o diagnóstico é tão claro como deveria ser nas crianças. No entanto, habitualmente, neste tipo de diabetes os sintomas são menos severos. (3), (4), (5)
Tratamento: Neste caso, a adoção de um estilo de vida saudável e o controlo do peso são prioritários e deverão ser complementados com a terapia medicamentosa.
Os hábitos das crianças portuguesas:
Os hábitos alimentares das crianças e jovens portuguesas caracterizam-se pelo baixo consumo de fruta fresca e hortícolas, uma elevada percentagem de consumo de doces, bolachas, guloseimas e refrigerantes, além de apresentarem um reduzido consumo de água e se destacarem por ser os grupos etários que mais consomem laticínios, cereais de pequeno-almoço e barras de cereais. (6)
Relativamente à prática de atividade física, jovens com idades inferiores a 15 anos passam, em média, cerca de 9 horas em comportamentos sedentários, valor que aumenta substancialmente com a idade. Muitas das vezes, estes hábitos sedentários potencializam mais momentos de alimentação e, muitas vezes, com escolhas pobres em nutrientes (hidratos de carbono complexos, fibra, proteína, gorduras monoinsaturasdas) e ricas em energia, portanto, contribuem para o aumento de peso corporal. (7), (8)
Mesmo que seja um longo caminho a percorrer na mudança de hábitos alimentares, é de notar, a crescente preocupação na modificação da oferta alimentar em contexto escolar, da redução de publicidade de alimentos ultraprocessados nos media e a preocupação constante por parte dos pais e cuidadores.
Recomendações:
O momento do diagnóstico da diabetes poderá ser algo assustador para a criança e para o cuidador, sendo que alguma calma e confiança podem ser retomadas quando é apresentada a tríade do tratamento: medicação (Diabetes Mellitus tipo 1 – administração de insulina; Diabetes Mellitus tipo 2 – medicação oral), alimentação saudável e prática de exercício físico, assim alcançam o controlo glicémico e reduzem o risco de desenvolvimento de complicações e co-morbilidades associadas à Diabetes Mellitus. Além da importância do tratamento, torna-se fundamental o apoio e a formação dos cuidadores e da comunidade escolar, de forma a dar uma resposta rápida em situações de hipoglicemia e hiperglicemia e serem elementos ativos na alteração de hábitos e no aumento da qualidade de vida. (3), (5)
Relativamente à prática de atividade física, recomenda-se reduzir o tempo despendido em frente aos ecrãs para um máximo entre 1 a 2 horas por dia e aumentar para 60 a 90 minutos diários a prática de exercício físico. (8)
No que respeita à alimentação, embora inicialmente, a alimentação dos diabéticos fosse muito restritiva, excluindo, muitas vezes, alimentos fulcrais como a fruta, atualmente sabe-se que ela deve ser o mais completa, equilibrada e variada possível, tendo especial atenção ao:
- Horário e fraccionamento alimentar: deve realizar 5 a 6 refeições diárias, de preferência no mesmo horário, assim, contribui para um melhor controlo dos níveis de glicose no sangue após as refeições, evitando variações drásticas, e no caso do diabético tipo 1, sem afetar o esquema de insulina estabelecido clinicamente;
- Quantidade de alimento: a quantidade de hidratos de carbono presentes na refeição influenciam a dose de insulina administrada (diabetes tipo 1), além disso, opte por mastigar vagarosamente os alimentos e assim, promover maior saciedade e um aumento gradual da glicémia;
- Escolha alimentar:
- Prefira alimentos ricos em hidratos de carbono complexos, dado que necessitam de mais tempo para serem digeridos e absorvidos, como é o caso de cereais integrais e leguminosas.
- Alimentos ricos em hidratos de carbono simples têm uma absorção mais rápida e portanto, consoante a quantidade, poderão originar variações drásticas de glicémia. Nesta categoria alimentar privilegie os laticínios magros que possuem um teor elevado de proteína e a fruta pelo elevado teor de fibra, que permite uma absorção gradual, redução dos níveis plasmáticos de colesterol, aumento da saciedade e um peso saudável.
- As fontes proteicas de origem animal (laticínios, carne, peixe, ovos …) e de origem vegetal (tofu, leguminosas …) são excelentes aliados na saciedade de cada refeição e uma absorção gradual da glicemia.
- Os hortícolas devem estar presentes nas refeições principais em quantidades significativas, dado que apresentam baixo valor energético, reduzido teor de hidratos de carbono e elevada riqueza nutricional;
- Opte por alimentos ricos em ácidos gordos monoinsaturados, como o azeite, e polinsaturados, como o peixe e frutos oleaginosos, uma vez que contribuem para o aumento dos níveis do “bom” colesterol e do controlo da glicémia, dada a sua absorção e digestão lentas. Evite os alimentos ricos em gorduras saturadas (carnes vermelhas, guloseimas, produtos de pastelaria, …) que contribuem para o “mau” colesterol, comorbilidades da diabetes e excesso de peso.
- A água deverá ser a bebida de eleição diária. Elimine da alimentação diária, as bebidas açucaradas como os refrigerantes;
- As confeções alimentares deverão ser simples e saudáveis como grelhados, assados com pouca gordura e cozidos, além de serem temperados com ervas aromáticas e especiarias em detrimento do sal;
- Dê sempre prioridade aos alimentos frescos/naturais e com o mínimo de processamento possível. Entre os processados, escolha mais facilmente através do Nutri-Score e da leitura dos rótulos que poderá ser facilitada com o auxílio do Descodificador de Rótulos. (8)
Resumindo, existem informações globais, mas não existe uma dieta única para todos os diabéticos, portanto, é importante o encaminhamento para uma avaliação e estabelecimento de um programa nutricional individualizado, orientado pelo médico e nutricionista da consulta de diabetes, particularmente os diabéticos tipo 1, que devem receber ensino da contagem de hidratos de carbono e a sua adequação à dosagem de insulina administrada.
É possível ter uma vida “normal” com diabetes, desde que adquira a informação e o acompanhamento certos.
Referências Bibliográficas:
- https://www.who.int/health-topics/diabetes#tab=tab_1
- https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Esaude/orientacao_diabetes_dez2016_assinada.pdf
- Diabetes Tipo 2 na Infância e Adolescência – Novos Doentes, Novos Desafios. Revista Portuguesa de Diabetes. 2015; 10 (2): 90-97. http://www.revportdiabetes.com/wp-content/uploads/2017/11/RPD-Vol-10-n%C2%BA-2-Junho-2015-Artigo-de-Revis%C3%A3o-p%C3%A1gs-90-97.pdf
- Vilela, S., Correia, D., Severo, M., Oliveira, A., Torres, D., & Lopes, C. (2019). Eating frequency and weight status in Portuguese children aged 3–9 years: results from the cross-sectional National Food, Nutrition and Physical Activity Survey 2015–2016. Public Health Nutrition, 22(15), 2793-2802. doi: 10.1017/s1368980019000661
- Diabetes: Factos e Números – O Ano de 2016, 2017 e 2018 − Relatório Anual do Observatório Nacional da Diabetes 12/2019 Sociedade Portuguesa de Diabetologia.https://www.spd.pt/images/uploads/20210304-200808/DF&N-2019_Final.pdf
- Lopes C, Torres D, Oliveira A, Severo M, Alarcão V, Guiomar S, Mota J, Teixeira P, Rodrigues S, Lobato L, Magalhães V, Correia D, Carvalho C, Pizarro A, Marques A, Vilela S, Oliveira L, Nicola P, Soares S, Ramos E. Inquérito Alimentar Nacional e de Atividade Física, IAN-AF 2015-2016: Relatório de resultados. Universidade do Porto, 2017. ISBN: 978-989-746-181-1. Disponível em: www.ian-af.up.pt.
- Vilela, S., Correia, D., Severo, M., Oliveira, A., Torres, D., & Lopes, C. (2019). Eating frequency and weight status in Portuguese children aged 3–9 years: results from the cross-sectional National Food, Nutrition and Physical Activity Survey 2015–2016. Public Health Nutrition, 22(15), 2793-2802. doi: 10.1017/s1368980019000661
- https://www.apn.org.pt/documentos/ebooks/Diabetes.pdf
Daniela Cação
Nutricionista Auchan
Membro da Ordem dos Nutricionistas Nº 4295N