O teletrabalho era para muitos uma possibilidade longínqua, antes de se ter tornado obrigatório na pandemia. Nessa altura, quer se quisesse quer não, todos tiveram que adaptar rotinas. Os resultados não foram unânimes: há quem tenha ficado a detestar o trabalho a partir de casa e quem já não queira outra coisa. No meio destes dois extremos há todo um leque de combinações possíveis de trabalho remoto e presencial, onde a maior parte das pessoas encaixa. A questão que se impõe é, qual a proporção de um e de outro que serve as necessidades e traz maior benefício a todos os envolvidos? Aqui ficam alguns fatores a ter em conta para encontrar a solução melhor para si.
Política do local de trabalho
Primeiro, há que entender quão aberta está a entidade empregadora (Estado, empresa ou os clientes diretos) ao trabalho remoto, e em que formato. Conhecer as regras e os casos de colegas que encontraram uma solução híbrida no mesmo meio de trabalho vai ajudar a estruturar as suas possibilidades. Se a cultura da empresa não encaixa exatamente no que deseja fazer – por exemplo, se apenas permitir um dia remoto e para si seria melhor três dias – nem tudo está perdido. Nesse caso, terá que apresentar a sua proposta com uma argumentação mais forte e cuidada.
O velho truque do gráfico de queijo
Entender qual é a “fatia” semanal de tempo que cada uma das suas tarefas ocupa, em todas as áreas (não só a laboral), ajuda a ver com mais clareza como gasta o seu tempo e de que forma pode otimizá-lo. Invista mesmo aqueles 10min no excel a fazer um gráfico de queijo, não só porque visualmente é bastante esclarecedor, mas também porque pode servir como base para pensar em algumas mudanças, ou para entender como as proporções mudam ao longo do ano.
Por exemplo, se a proporção de tempo em trabalho individual e de equipa favorecer mais o primeiro, talvez não haja grande razão para estar presente todos os dias. O mesmo se passa para quem perde muito tempo em deslocações, que num dia de teletrabalho pode servir para pôr em dia algumas das tarefas domésticas ou um hobby, por exemplo. Já quem tem a casa cheia, e tem tendência a distrair-se, pode precisar de mais tempo no escritório para tratar dos assuntos mais importantes, deixando por exemplo, um dia com trabalho mais leve que possa ser feito em casa e conjugado com outras obrigações.
Manter o sistema flexível (dentro do possível)
A forma como gastamos o tempo tem os seus altos e baixos. Cada função ou profissão tem os seus picos de trabalho ao longo do ano, bem como tempos mais parados, de menos volume de trabalho. Pense num ano típico e identifique estes fenómenos que podem alterar as proporções do seu gráfico queijo, por conseguinte, a proporção de tempo passado em teletrabalho. Tenha em conta as festividades (Natal, Páscoa), bem como as estações do ano e as suas próprias ocasiões especiais.
Antecipar possíveis resistências e bloqueios
Muitas vezes o maior obstáculo a um bom equilíbrio remoto-presencial são as resistências, tanto do próprio como de colegas, chefias ou clientes. Estas podem ser baseadas em fatores concretos e objetivos, mas a verdade é que são maioritariamente emocionais. Estão associadas a insegurança, falta de confiança, sensação de sobrecarga, medo de “desaparecer” e ser desconsiderado, problemas de autonomia, ansiedade social, entre outros.
Se as resistências vêm do próprio, ajuda falar com pessoas em situações semelhantes, fazer um quadro de prós e contras de cada uma das opções e definir limites, quer em casa (onde é mais difícil não misturar trabalho com tarefas domésticas ou outras), quer no local de trabalho. Identifique as situações desconfortáveis e descubra o que as causa e como pode agir sobre isso.
Se as resistências vêm dos outros, o processo pode ser mais demorado e terá que escolher as suas batalhas. Mudar de hábitos não é fácil, e muitos resistem a mudanças. Terá que optar pela diplomacia para ir conquistando aos poucos, e ir fazendo valer o seu ponto de vista, salientando as vantagens para todos, ao mesmo tempo que mostra trabalho e produtividade, assegurando que a proposta traz mais eficiência e motivação. Se tudo correr bem, conseguirá pelo menos uma aproximação ao modelo que deseja.
O pós-pandemia tem sido um período crítico, de muitas adaptações. O modelo híbrido de trabalho poderá ter sido uma das melhores opções que entraram em jogo, permitindo uma gestão mais flexível da presença e do tempo, o que pode facilmente traduzir-se numa maior satisfação com a vida e o trabalho, e a um ganho de motivação que beneficia todos os envolvidos.

Teresa Fernandes, Fisioterapeuta
Instrutora de Yoga Suspenso, Gyrotonic e Gyrokinesis (aplicação na perda de mobilidade, prevenção de problemas músculo-esqueléticos, pré e pós-parto)