Como falar de guerra com as crianças?

AE vs criancas e guerra | Auchan&Eu

O que é a Guerra?
Porque é que fazem mal aos outros?
E o que vai acontecer às pessoas que vivem lá?
E os meninos têm medo?
Podemos ajudar?
A guerra vem para Portugal?
Vamos ter que fugir?
Tu tens medo?

Estas são algumas das muitas perguntas que os nossos filhos, sobrinhos, netos, afilhados, crianças/jovens no geral nos podem fazer acerca da Guerra na Ucrânia.

Eles procuram respostas para a informação que lhes chega de variadas formas e que lhes provoca curiosidade mas, ao mesmo tempo, receio e ansiedade. Procuram nos adultos (pais, educadores, professores, entre outros) respostas claras e securizantes.

No entanto, estas perguntas criam nos adultos dúvidas, inseguranças e ansiedade.

Como lhes devemos responder? Devemos evitar responder? Devemos transformar em algo positivo? Devemos mentir? Devemos explicar tudo? E se nunca nos questionarem, devemos falar sobre o assunto?

Não existem fórmulas corretas, nem receitas iguais para todas as situações pois são vários os fatores que se devem ter em conta. Para os adultos a guerra é assustadora, para as crianças/jovens pode ser mesmo aterrorizadora, podendo sentir medo, dor ou confusão.

Perante o cenário de guerra é natural que as crianças se sintam confusas, perturbadas, ansiosas, assustadas, preocupadas ou tristes (conheça a check-list da Ordem dos psicólogos). Podem recear pela sua segurança e a da sua família e amigos. Podem também apresentar mudanças de comportamento, alterações no padrão do sono, apetite, concentração, fazer mais birras, comportamentos agressivos e ansiedade de separação. A guerra pode afetar a forma como as crianças/jovens sentem e pensam, podendo colocar em causa a sua necessidade de ver o mundo como um lugar seguro e previsível.

Aos adultos surge a ambivalência entre protegê-los e deixarem-nos ser curiosos, valorizando formas pacíficas de resolver problemas/conflitos e que tenham consciência que podem contribuir para melhorar o mundo.

Evitar falar sobre assuntos desconfortáveis gera emoções e sentimentos desagradáveis, mais desconforto e medo. É importante criar um espaço tranquilo onde as crianças/jovens sintam que podem conversar, que o adulto consegue falar sobre temas difíceis e que está disponível para o ajudar a fazer o mesmo. Ao conversar com a criança/jovem o adulto deve, em primeiro lugar, sentir-se preparado e informado.

Posteriormente devem disponibilizar-se para escutar as preocupações, conversar e responder às questões por eles colocadas, tendo capacidade de compreensão e empatia, assegurando que podem sentir-se seguras e protegidas. É importante descobrir o que a criança/jovem já sabe. Mais importante do que explicar ou fornecer informação sobre a guerra, é ouvir o que a criança queira, espontaneamente, comentar ou questionar. As respostas e a linguagem utilizada dependem da idade da criança, da sua maturidade, grau de desenvolvimento, de acesso a outras fontes de informação ou relação familiar com o conflito. Deve-se permitir expressarem (palavras, desenhos, brincadeiras) os seus pensamentos e sentimentos, mostrando disponibilidade para falar sobre o assunto e validando os seus sentimentos, respeitando as suas questões e respondendo às mesmas sempre que sejam colocadas, mesmo que de forma repetida, pois precisam de sentir que faz sentido. Deve-se ser honesto, não minimizar a gravidade da guerra mas sem sobrecarregar com informação desnecessária, evitando estereótipos e opiniões. Transmitir segurança e proteção através das palavras, abraços, beijos e manutenção da rotina é crucial. Caso as crianças/jovens não queiram conversar sobre o assunto é importante sentirem que o podem fazer quando tiverem essa necessidade. As crianças mais novas podem não se mostrarem interessadas e deve ser respeitado.

Ao falar sobre a guerra também é importante reforçar que,  apesar de ser terrível e assustador, existem pessoas que tentam ajudar, mostrando exemplos de atos de coragem, humanidade e amor entre as pessoas.

Todas as guerras acabam e existem soluções não violentas para a paz. É uma oportunidade para promover a tolerância, compaixão, respeito pelos outros, sendo um ponto de partida para estimular o desenvolvimento da criança/jovem noutras áreas, permitindo falar sobre assuntos que possam mostrar preocupação.

Outro aspeto a gerir é o acesso à informação por parte das crianças/jovens que deve ser de acordo com a sua idade. Pode-se assistir às notícias em conjunto com as crianças mais velhas/jovens. Às crianças mais novas deve-se restringir o acesso à informação da comunicação social, protegendo-as da exposição a imagens e informação perturbadora.

Os adultos são modelos de aprendizagem para a criança.

A forma como nos sentimos e reagimos também lhes dá informação de como lidar com as situações. É importante, enquanto adultos, que também escutemos e
analisemos como nos sentimos, dando espaço para a reflexão, partilha, compreensão e informação, de forma a encontrar estratégias para lidar com a ansiedade. É importante ressalvar que, seja na temática da guerra, seja em qualquer temática, os adultos não precisam de ter todas as respostas. Não é necessário ser-se especialista num assunto para conversar com as crianças/jovens.

Como linhas orientadoras para conversar com crianças/adultos devemos deixar questionar, estar disponível para ouvir, ser claro e honesto, apoiar e validar sentimentos, transmitir segurança, evitar consumo excessivo de informação, educar para a paz e harmonia. É importante estar atento para as existência de alterações duradouras do comportamento e do sono, preocupação constante com o assunto e medo da morte, podendo procurar um psicólogo para nos acompanhar no processo de cuidar da nossa saúde psicológica.

Mais informações em Ordem dos Psicólogos.

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Catarina Moço
Psicóloga Clínica (OP 5069)
Fundação Pão de Açúcar Auchan