A pandemia de Covid-19 trouxe alterações profundas no modo como vivemos. Nestes dois anos, muito ficou para trás. Trabalho, relações, hobbies, várias foram as áreas que sofreram com as alterações impostas pelo vírus.
Entre elas, a saúde destaca-se. Só em 2020, houve mais de 100 000 cirurgias e mais de um milhão de consultas adiados nos hospitais. Os cuidados primários também estiveram comprometidos, com os Centros de Saúde sobrecarregados a gerir milhares de doentes Covid e a ter que adiar tudo o resto. Tanto as consultas de rotina como as consultas destinadas a encontrar ou resolver um problema novo sofreram adiamentos e deverão ser realizadas o mais depressa possível.
Dois anos depois do início da presença da Covid em Portugal, os serviços estão a retomar alguma normalidade. É certo que poderá haver lista de espera na mesma, mas se não marcar demorará ainda mais tempo. Não adie mais e organize-se para pôr as suas consultas em dia, de acordo com o que já fazia antes e dos sintomas que, entretanto, surgiram.
Aqui ficam algumas das consultas que provavelmente vai ter que marcar.
A consulta de medicina geral e familiar será uma boa primeira abordagem, para estabelecer o estado atual de saúde, conversar com o seu médico e organizar a partir daí os exames e outras consultas a fazer.
A saúde dentária também merece atenção. Não deixe as cáries, dores de dentes e acumulação de placa bacteriana esperarem mais. Quanto menos adiar, menos sofre e mais problemas serão evitados.
A consulta de ginecologia também não deve ser descurada, para os exames estarem em dia e para serem feitos os ajustes necessários da medicação (contraceção, terapia hormonal, entre outras). A saúde feminina é das áreas mais facilmente remetidas para o fundo da lista de prioridades, causando não só sofrimento físico desnecessário, como problemas que extravasam para outras áreas importantes da vida, como a auto-estima e a saúde sexual.
Uma consulta muito necessária que pode ser facilmente esquecida, é com o oftalmologista. Não só porque em dois anos pode ser necessário rever a graduação e a saúde ocular, mas algo neste período mudou para quase todos: o tempo passado em frente a um ecrã. Esta alteração de rotina, transversal a várias idades e sectores da sociedade, teve certamente um impacto na visão e requer ajustes médicos. Não deixe passar mais tempo. Ver mal não só causa sintomas ao nível dos olhos, mas também contribui para outros como dores e alterações posturais, dores de cabeça e fadiga em geral, que pioram a qualidade de vida.
Outra área muito afetada pela mudança de hábitos na pandemia foi a saúde musculo-esquelética. A alteração de postura pela mudança do escritório para casa, as restrições de saída que podem ter afetado hábitos de exercício, alterações alimentares e do peso corporal, tudo pode ter contribuído para se instalarem dores novas ou reavivarem dores antigas. Embora a tendência seja para não dar importância, o preço de ignorar estes sintomas é o surgimento de compensações um pouco por todo o corpo, que amplificam a dor original e criam um problema mais complexo e que demora mais a resolver. Há várias abordagens possíveis para avaliar e tratar estes sintomas – ortopedia, medicina física e reabilitação, fisioterapia, osteopatia – pelo que pode escolher um bom profissional (ou equipa) que o ajude a encontrar a origem do problema e a solução mais eficaz para si.
Além destas consultas mais genéricas, cada um deverá compor a sua lista pessoal de acordo com o que já fazia antes ou com novos sintomas que tenham surgido.
Sobretudo se sente que algo está diferente ou se tem novos sintomas, não adie mais. Muitos problemas sérios de saúde têm muito mais probabilidade de ser resolvidos com uma deteção precoce, não deixe que o medo ou a negação se ponham entre si e a sua saúde.
Por fim, mas de forma nenhuma menos importante, há que abordar o tema da saúde mental. Se há área da nossa vida pessoal e coletiva que ficará afetada por muitos anos com os acontecimentos da pandemia, esta é a saúde mental. Nunca é demais salientar isto. Precisar de ajuda psicológica não é ser maluco, não é ser desequilibrado ou fraco. Pelo contrário, é necessária a força e presença de espírito para reconhecer que as circunstâncias em que vivemos têm uma influência em nós, e que há situações em que perdemos de vista as nossas ferramentas para lidar com as emoções, as relações e a vida em geral.
É certo que problemas psicológicos recorrentes como a ansiedade e a depressão, já em franca expansão antes da pandemia, se tenham agravado muito nesta situação. Desde o confinamento, ao medo, à restrição das relações humanas, aos lutos impedidos, às alterações laborais como o desemprego ou o burnout, são muitas as fontes de alteração psicológica. E é normal, mesmo humano, não ter ferramentas que cheguem para lidar com tudo. Ninguém tem superpoderes, todos se preocupam e todos têm inseguranças e fragilidades. Ter alguém que oiça, seja imparcial e tenha conhecimentos para propor soluções ou mecanismos para lidar com os problemas (porque nem todos têm solução e isso é normal), é uma grande ajuda para ultrapassar estes tempos de mudança e incerteza.
Além disso, tal como foi referido nas outras consultas anteriores, se tinha sido previamente seguido por um profissional de saúde mental, a consulta de rotina e revisão de medicação ou outros procedimentos que estejam a decorrer, é muito importante. Mesmo que tenha sido seguido à distância, procure voltar a uma consulta presencial, pelo menos, em que a comunicação é mais abrangente, o local é seguro e dedicado à consulta, e pode sentir mais abertura para falar sobre o que o preocupa e juntamente com o profissional podem decidir o rumo a tomar a partir de agora. Não descure a sua saúde mental, nem a dos que estão à sua volta.
Toda a sociedade passou por mudança nos últimos dois anos, houve sofrimento, perda e necessidade de adaptação. Por muito resilientes que sejamos, ninguém supera tudo a todo o momento sem ajuda. Cuide da saúde a todos os níveis, e terá aí a base de uma vida mais equilibrada e de um futuro mais animador.

Teresa Fernandes, Fisioterapeuta
Instrutora de Yoga Suspenso, Gyrotonic e Gyrokinesis (aplicação na perda de mobilidade, prevenção de problemas músculo-esqueléticos, pré e pós-parto)