Cinco gestos diários para manter a saúde mental no confinamento

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Por mais que se apregoe o novo normal, neste quase ano completo de pandemia, o confinamento geral nunca deixa de ser um grande desafio à saúde mental. Sentimentos de tristeza, tédio, insatisfação, ansiedade, impotência ou mesmo depressão surgem facilmente, mesmo para aqueles que são normalmente resilientes. E isto é verdade para todos os contextos, no espectro entre a solidão total e a família numerosa ou alargada.

Ainda assim, mesmo com demasiado ou quase nenhum tempo disponível no dia, há cinco hábitos simples que podem melhorar o seu dia e ajudar a ultrapassar esta fase com uma melhor saúde mental.

Descansar

Dar tempo ao descanso é, muitas, vezes subvalorizado, e depende largamente da capacidade de gestão do tempo e dos sentimentos de culpa associados a um tempo em que nada se produz, numa sociedade em que o sucesso se mede pela quantidade de tarefas executadas.

No entanto, o descanso do corpo e da mente é fundamental, para resolver problemas e modular a ansiedade e a depressão. Os períodos de não atividade são chave para a produtividade, e devem por isso ser respeitados.

Permita-se alguma forma de descanso durante o dia. Seja parar uns minutos a seguir ao almoço, para iniciar a digestão com calma, uma curta sesta a meio do dia, ou um momento a sós com boa música. Procure ter horas para sair do modo trabalho e cumpra-as, pela sua sanidade mental.

Ler

Ler é das atividades que tem mais potencial de descanso activo. Ajuda a mente a evadir-se, a viver histórias e realidades diferentes. Estimula a empatia, a curiosidade, a memória e o vocabulário. De todos os estilos de leitura, a ficção é rainha no que toca a esvaziar a cabeça das preocupações do dia, bem como dos ciclos de ansiedade e dos sentimentos negativos face ao período difícil em que estamos.

Por mais sono que tenha, por tarde que se deite, tente não falhar umas palavras de um bom livro de ficção. Pode sempre escolher uma história que lhe agrade particularmente, ou que se adeque aos sentimentos que tenta combater. Existem até autênticos “receituários” literários, sugerindo livros adequados a cada momento, de acordo com o estado de espírito, a fase da vida ou as situações que se procura ultrapassar.

Aprender algo novo

Numa época em que pouco se pode desviar dos locais, convívios e percursos estritamente necessários, aprender algo novo surge como uma forma refrescante de sair desse círculo limitado, e dar algo de novo e entusiasmante ao cérebro – e por vezes ao corpo – com que se entreter.

A aprendizagem de coisas novas é um dos principais fatores de qualidade de vida, e não é por acaso. Estimula a curiosidade, a resolução de problemas, a criatividade, entre muitas outras capacidades, já mais específicas de cada conteúdo.

As possibilidades são infinitas. Pode jogar com contextos que contrastem mais com a vida diária de trabalho, para que funcionem como uma mudança de ambiente mais explícita, associada a descanso e lazer. Podem ser aprendizagens curtas e simples – o tempo de ir ver o significado de uma palavra ou espreitar a biografia de um nome que já se ouviu tanto e do qual se sabe pouco – ou mais consistente e exuberante, como aprender uma nova língua, uma nova forma de exercício ou um instrumento musical.

Hoje em dia, a internet é uma fonte inesgotável de conhecimento e ferramentas de aprendizagem. Basta ter curiosidade e começar. A saúde mental agradece.

Meditar

Tirar uns minutos para parar, deixar a respiração fluir e desapegar dos pensamentos é muito benéfico para o foco e a energia que se põe nas atividades do resto do dia.

É certo que, apesar de simples, não é algo imediato ou muito fácil de conseguir. A boa notícia é que a prática, mesmo curta, com interrupções ou pensamentos insistentes e impeditivos de “esvaziar” a mente, já ajuda, e os seus benefícios vão sendo graduais e cumulativos. Quando der por si, já se torna fácil manter o corpo imóvel, e a capacidade de não se demorar em determinado pensamento quando ele surge já estará mais afinada ao fim de uns dias de prática. A chave aqui é largar o perfecionismo, ninguém se transforma em monge budista do dia para a noite, nem é essa a ideia.

Meditar faz-se de momentos breves, mas consistentes. Ajuda a relativizar, traz serenidade, discernimento e modula as emoções dirigidas ao próprio e aos outros, com os respectivos benefícios nas relações e na auto-estima.

Falar com alguém

Numa sequência de dias que parecem todos iguais, é fácil cair na armadilha de deixar passar demasiado tempo sem falar com alguém. E não é sobre tarefas domésticas ou trabalho. As conversas construtivas fazem falta, com discussão de ideias, desabafos sobre a vida, partilha de novidades e de momentos de bom humor.

Sempre que puder, ligue a alguém que o disponha bem. Ajudem-se mutuamente nos desafios destes dias. Se não tiver tempo para ligar, mande uma mensagem breve, a perguntar como estão as coisas e talvez a partilhar algo dos seus dias. Os humanos são seres sociais, e dependem desses laços, dessa interação, para estarem saudáveis. Não deixe arrastar os dias sem cultivar as suas relações.

E se está a lidar com um estado de espírito mais derrotado, por lhe ser avassaladora a carga dos dias, seja por que motivo for, saiba que não é vergonha contactar um profissional. Alguém isento, que ouve sem julgar, que pode ajudar a compor uma “caixa de ferramentas” de saúde mental para ultrapassar tempos difíceis, é uma preciosa ajuda.

Faça da sua saúde mental uma prioridade. Cuide dela como cuida da sua saúde física, e sairá mais forte destes dias difíceis de pandemia e confinamento.

Teresa Fernandes, Fisioterapeuta
Instrutora de Yoga Suspenso, Gyrotonic e Gyrokinesis (aplicação na perda de mobilidade, prevenção de problemas músculo-esqueléticos, pré e pós-parto)