Os jovens e a ansiedade. Como ajudar a vencer a batalha?

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A ansiedade é uma das epidemias dos tempos modernos. Afeta transversalmente pessoas de todas as idades, mas torna-se especialmente preocupante em crianças e jovens, por não terem ainda a maturidade e experiência necessárias para desenvolver autonomamente estratégias para lidar com estados ansiosos.

Há alguns interesses ou reflexões que podem ser estimuladas para ajudar os adolescentes a contornar as espirais de ansiedade a que estão sujeitos.

Aqui ficam algumas sugestões:

1. Rever criticamente o consumo de redes sociais e conteúdo online
É urgente estimular os jovens a reduzir a dependência dos conteúdos online, sejam redes sociais, jogos ou outros. A comparação constante veiculada pelas redes sociais aumenta muitas vezes a sensação de insuficiência e pode levar a estados de tristeza, fraca auto-estima e depressão. Além disso, a dormência e o alheamento causados por aplicações especialmente desenvolvidas para absorver o máximo de atenção possível podem impedir de desfrutar verdadeiramente da vida real e palpável. E no fundo é esta vida real e palpável que nos enraíza, que nos dá base para crescer e resistir às adversidades.
É verdade que temos que viver no nosso tempo, não adianta fingir que se vive noutro, qual dieta paleolítica digital. Consumir conteúdos nas redes sociais deve ser feito com consciência e com sentido crítico do que se está a escolher (e do que o algoritmo nos está a impingir) para tomar o nosso tempo e atenção. Por que não usar esse tempo para aprender alguma coisa nova ou por uma habilidade em prática? Não faltam conteúdos, e felizmente uma boa parte é construtiva. Há que saber escolher o que se consome.
A forma como se apresenta esta ideia aos jovens pode fazer toda a diferença. Numa idade em que se começa a conquistar independência e liberdade, pode ser interessante fazer ver que não há menor liberdade que estar preso às referências caprichosas e tantas vezes descontextualizadas que são apresentadas como verdades absolutas. Não há menor originalidade do que não se conhecer verdadeiramente, dormente com estímulos imediatos e incessantes.

2. Desenvolver as suas capacidades particulares
Não é território exclusivo da escola, nem tem que ser sempre ditado por outros. É tão bom sobre temas de que se gosta, mesmo os mais insólitos, aparentemente inúteis. A curiosidade, esse é o verdadeiro talento a estimular. Em que parte do caminho se perdeu o verdadeiro gosto por aprender?
Modas à parte, somos todos diferentes. Encontrar os temas que nos interessam verdadeiramente, por muito impopulares que sejam, ajuda ao auto-conhecimento, à formação da personalidade e ao aumento da auto-estima.
É tão bom descobrir a alegria de estar presente e imerso em qualquer coisa. Pode ser um desporto, desenhar, escrever ou falar com alguém. Ter essa experiência de não dar pelo tempo passar a fazer algo de que se gosta ou no qual se está profundamente concentrado ajuda a combater a inquietação da ansiedade, que faz saltar constantemente de um pensamento para outro ou entrar em obsessões e pensamentos mono-temáticos pouco saudáveis.
Dedicar-se a algo, fazer disso rotina, comprometer-se, observar a evolução e a compensação pelo esforço ajuda a ver o médio e o longo prazo, não só o imediato. Manter o compromisso apesar da inércia ou falta de vontade e persistir perante os obstáculos são bases sólidas de disciplina saudável com benefícios transversais a todas as áreas da vida.

Além disso, saber falar sobre um assunto, conhecer pessoas que partilhem essa paixão e expandir ou aplicar esses conhecimentos, sem qualquer outro motor que não o brio pessoal, é uma excelente forma de ganhar confiança e fugir à ansiedade. A cereja no topo do bolo: muitas vocações são descobertas dessa forma. Quem sabe um hobbie peculiar não se torna um dia numa profissão principal ou secundária?

3. Partilhar os seus dons
Uma vez descobertas as paixões e talentos, o passo seguinte é partilhá-los. Se há coisas que por definição os jovens têm em abundância, elas são o tempo e a energia. Dar esse tempo e energia aos outros pode ser extremamente gratificante. Contribui para encontrar um lugar na comunidade. Pode ser através do voluntariado, por exemplo, ou de um papel mais ativo na família, ajudando irmãos, pais ou avós. Tirar-se do centro do mundo por uns instantes e experimentar empatia pelos outros, mas também o reconhecimento e a sensação de ser útil.
Este processo desenvolve também a capacidade de sentir e expressar gratidão, bem como a construção de uma rede social de apoio (real, não virtual) assente em relações sólidas e emocionalmente mais ricas.

4. Conectar-se com a Natureza.
Parece básico, mas não é. A maior parte da população concentra-se em cidades com pouca ou nenhuma ligação à Natureza. A vida desenrola-se desenraizada, impassível e indiferente, entre bolhas de convívio, em casa, na escola e pouco mais. Perdeu-se a ligação às pessoas que nos rodeiam, ao lugar, à parte natural do nosso contexto. A geração dos pais cresceu ainda com os intermináveis verões no campo ou praia, em casa dos avós, mas algures alguma geração deixou de ter essas raízes, esse porto de abrigo. Por escassa que seja a oferta, é importante descobrir e estar nos espaços verdes. Deitar-se ou andar descalço pela relva, perder algumas horas num parque.

5. Explorar, fazer algo diferente.
Ir. Fazer e ter experiências novas, estimular os sentidos. Ver uma exposição, a andar fisicamente de sala em sala, pode fazer muito mais pela criatividade do que colecionar “gostos” que não se vão ver uma segunda vez, só pelo prazer efémero de os consumir. Ver com calma, com olhos de ver. Deixar-se levar pelos pensamentos e emoções suscitados pelo que se vê, ouve e experiência. O mesmo se passa com uma ida ao cinema ou ao teatro. Mas ir. Estar fisicamente num lugar a ver algo ainda tem mais impacto do que consumir imagens breves umas atrás das outras, dormente em relação ao que elas podem fazer sentir ou lembrar.

6. Procurar ajuda
A ansiedade vem sob muitas formas e tem um leque grande de sintomas, gatilhos e consequências. Apesar de ser interessante estimular os hábitos e reflexões sugeridas, há situações em que uma ajuda extra é bem-vinda.
Muitos jovens beneficiariam de aconselhamento por parte de profissionais qualificados, seja em sessão individual, seja em contexto de grupo, na escola ou na família. Felizmente, muitas escolas já o disponibilizam.

O primeiro passo é a consciência do problema e o estabelecimento de bases sólidas para o desenvolvimento da autonomia e personalidade, desde a infância. O papel dos adultos é fundamental, primeiro cuidando da sua própria saúde mental. Depois, dando o exemplo e criando hábitos saudáveis junto das crianças e jovens. Procuremos caminhar para uma sociedade menos ansiosa.

teresa | Auchan&Eu

Teresa Fernandes, Fisioterapeuta Instrutora de Yoga Suspenso, Gyrotonic e Gyrokinesis (aplicação na perda de mobilidade, prevenção de problemas músculo-esqueléticos, pré e pós-parto)