Nasceu o bebé, e agora?

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Vivência emocional do pós-parto. O Quarto trimestre da gravidez.

Após sensivelmente 40 semanas de gestação, no período do parto, nasce um bebé, o bebé real, pelo qual os pais aguardavam. Os novos pais são confrontados com a nova realidade, com o seu novo papel, com o terem que cuidar de um bebé, ao mesmo tempo que a mãe recupera fisicamente da gravidez. Este momento transitório é fundamental na adaptação à nova vida da família.

A este período chama-se pós-parto, também conhecido como puerpério. É caracterizado por ser um momento de transição em que ocorrem intensas alterações fisiológicas e psicológicas nas mulheres, relacionadas com aspetos hormonais, bem como questões familiares, culturais e psicossociais, relacionadas com o novo papel a desempenhar. O seu final não está bem definido, mas depende do restabelecimento do estado físico normal da mulher. Mais recentemente surge um novo conceito para caracterizar esta fase, o “4º trimestre de gravidez”, como sendo o período entre o parto e as 12 semanas de vida do bebé. Durante este tempo, tanto a saúde do bebé como a da mãe continuam a necessitar de atenção e acompanhamento. Não só para o bebé, mas para a família, existem muitas mudanças e adaptações, sendo este 4º trimestre essencial para a boa evolução do recém-nascido e para a saúde física e mental da mãe.

O nascimento de um bebé é um evento associado a celebração e a muita alegria. No entanto, com ele, vem também cansaço, solidão, tristeza e desamparo perante o novo desafio. Todos estas alterações fazem com que o puerpério seja um momento de maior vulnerabilidade a problemas de saúde não só físicos, mas também emocionais. O termo puerpério emocional descreve as mudanças emocionais que ocorrem na mãe após o nascimento do bebê, sendo caracterizado por uma série de sintomas que incluem tristeza, ansiedade, irritabilidade, cansaço, insónia e dificuldade de concentração. Esses sintomas são considerados normais e expectáveis, e podem durar cerca de duas semanas após o nascimento do bebé, sendo geralmente causados ​​pelas mudanças impactantes que ocorrem na vida da mulher durante esse período. É comum que no puerpério as mães se sintam mais sensíveis e vulneráveis a crises psicológicas. As emoções que surgem no puerpério emocional são naturais e fazem parte do processo de adaptação da mulher à nova realidade, a da maternidade.

É normal que a seguir ao parto a mãe sinta emoções tais como irritabilidade, choro fácil e melancolia. Estes sintomas ocorrem em muitas mães saudáveis e são chamados de “baby blues”. Este é uma síndrome afetiva ligeira, surgindo entre o 3º/4º dia, com duração até à 2ª semana, sendo por isso passageira. Cerca de 40% a 85% das mulheres sentem pelo menos 4 dos seguintes sintomas: humor depressivo; crises repetidas de choro; irritabilidade; ansiedade; confusão; labilidade de humor, perturbações do sono; perturbações do apetite; exaltação; dores de cabeça; esquecimento; sentimentos negativos em relação ao bebé.

Apesar destes sintomas caracterizarem o pós-parto, é importante estar atento à sua duração e intensidade. Em alguns casos, podem manter-se e prolongarem-se no tempo, tornando-se mais graves, sendo necessário procurar ajuda. Entre as principais crises que podem ser desenvolvidas durante o puerpério destaca-se a ansiedade e a depressão pós-parto.

A ansiedade pós-parto surge associada à responsabilidade de ter de tratar de um bebé recém-nascido, à rotina, à adaptação a uma nova realidade familiar, bem como a todas as alterações físicas após o parto. É importante ter consciência de que nem tudo será perfeito a seguir ao nascimento do bebé e que é necessário tempo para a recuperação e adaptação. Esta ansiedade manifesta-se de diversas maneiras, agindo desde a preocupação excessiva com o bebé, a medos mais intensos, como o de sair de casa ou de confiar o bebé a outras pessoas, impactando no bem-estar da mãe, da família e consequentemente do bebé.

A depressão pós-parto surge em cerca de 10 a 15% das mulheres e após o 2º/3º mês após o parto. Pode afetar a mãe, mas também o pai, e prejudicar o desenvolvimento do vínculo afetivo com o bebê. Essa condição pode ser caracterizada por humor depressivo (sem ideação suicida), associado a sentimentos persistentes de tristeza, desânimo, falta de energia e apetite, dificuldade de concentração, insónia ou sonolência excessiva, irritabilidade, ansiedade e exaustão, sentimentos de incompetência e culpabilidade. Estas condições não são exclusivas do puerpério emocional, mas podem ser agravadas por ele.

Por ser um período delicado e desafiador para muitas mulheres e casais, é fundamental cuidar da saúde mental nesse momento. Existem diversas estratégias que podem ajudar a aliviar a ansiedade, bem como a prevenir as crises psicológicas mais graves. É essencial que o pai seja envolvido durante todo o processo de gravidez e pós-parto. O facto de o pai e a mãe partilharem as tarefas pode atenuar o impacto excessivo de lidar com um novo ciclo de vida. Sendo um período associado a um enorme cansaço devido aos cuidados que ter um bebé implica, é essencial saber pedir ajuda quando necessário, tanto a familiares, como a profissionais. O apoio de familiares, dentro de limites estabelecidos pelo casal, é crucial para que os pais consigam cuidar deles como seres individuais e como casal. Ter uma alimentação equilibrada, praticar algum exercício (de acordo com a evolução física da mãe), rotina de sono (descansar quando o bebé está a descansar), boa comunicação no casal, são algumas das estratégias que se devem ter em conta.

Sendo o pós-parto um grande desafio emocional, quando os sintomas se mantém e começam a impactar na adaptação à nova realidade e no bem-estar dos elementos da família, revela-se crucial recorrer a apoio psicológico, de forma a identificar as dificuldades inerentes a este período e a adotar estratégias adaptativas. Em alguns casos poderá ter que se recorrer a medicação para controlo da ansiedade e depressão, sempre com acompanhamento médico.

As mudanças de vida têm um grande impacto emocional, sendo a gravidez e a parentalidade das mudanças mais impactantes no ser humano. Apesar da felicidade inerente a este período, é importante normalizar todos os sentimentos menos agradáveis, associados a esta mudança, não esquecendo de cuidar do bebé, mas também da mãe, do pai, da nova família que acabou de nascer.

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Catarina Moço
Psicóloga Clínica (OP 5069)