Como ser mais sustentável nas nossas rotinas diárias

Rotinas sustentáveis
outubro 2024

A sustentabilidade anda na ordem do dia, e com razão. Na era da abundância e da facilidade, em que tanto se produz em excesso como se desperdiça, é fundamental caminhar para uma solução responsável. Cada um poderá tomar decisões ponderadas, refletindo antes de consumir e trocando o pensamento mais individualista por uma perspetiva que tenha em conta a comunidade e o ecossistema em que vive.
E se há ambiente propício a essa reflexão, é em casa. Quer na fase de “montar” uma casa, quer na gestão diária, há muitas oportunidades para optar por um estilo de vida mais sustentável. Aqui ficam algumas sugestões.

Pensar e procurar antes de comprar

Só ao equipar uma casa é que se fica com uma noção real da quantidade de objetos necessários: roupas, utensílios, mobília, entre outros. A juntar a uma fase de mudança, muitas vezes não só de casa mas de vida, é comum a tentação de ir a um grande armazém e comprar tudo o que é necessário. Mas será a melhor solução?
A verdade é que não somos a primeira geração da abundância. Regra geral, a casa dos pais, tios e avós estão cheias de duplicados, roupas e utensílios que ocupam gavetas em maior quantidade do que a necessária para quem lá vive. Não custa perguntar se há algumas coisas que possam dispensar, que possam ter uma nova vida noutra casa. Em grande parte dos casos, a família tem gosto em que as coisas acumuladas ao longo de gerações tenham uso, ao invés de ficarem a acumular pó. Além disso, é provável que acabe por ficar com objetos de melhor qualidade e com mais valor sentimental.
O mesmo se passa com os móveis. À parte dos essenciais, não é necessário ter logo tudo o que pode ser preciso. Aliás, só algum tempo depois de se viver numa casa é que se sabe realmente o que melhor encaixa com as necessidades e as rotinas. Além dos móveis herdados de família ou amigos que já não os usem, procure em feiras e sites de venda de artigos em segunda mão, bem como instituições sociais especializadas em recuperar e vender móveis antigos.
Sobras das obras e outros desperdícios, tais como caixas de vinhos ou paletes em madeira, com criatividade e um mínimo de jeito – nada que milhares de tutoriais na internet não ensinem a fazer – transformam-se em móveis originais e feitos à medida do que precisa. Não faltam imagens inspiradoras de bases de cama, cabeceiras, mesas, estantes e outros móveis que podem ser feitos dessa forma criativa e sustentável.

Procurar inspiração no minimalismo

O minimalismo sempre teve um lugar nas tendências sociais, embora se tenha acentuado nos últimos anos como resposta a uma corrente, talvez dominante, de consumo e ostentação excessivos. No entanto, o próprio minimalismo é muitas vezes levado numa perspetiva radical, cheia de regras e limites. Neste caso sugere-se moderação e inspiração, ao invés da adesão a princípios que possam tornar-se demasiado austeros.
Algumas contribuições do minimalismo para a sustentabilidade em casa incluem evitar ter duplicados de objetos – quem nunca teve três saca-rolhas em casa que atire a primeira rolha – não aceitar brindes e ofertas que não se vão usar, tentar alugar ou pedir emprestadas coisas que se usem apenas um par de vezes por ano, e ir reduzindo aos poucos os pertences àqueles que realmente proporcionam utilidade ou satisfação. Sem exageros, sem regras rígidas, mas com convites regulares à reflexão sobre a posse e o consumo de coisas.

Consumir energia e água de forma consciente

Este ponto pode ser cumprido de uma forma mais eficiente se puder escolher alguns componentes da casa, tais como eletrodomésticos, lâmpadas e torneiras.
Mas mesmo se não puder escolher, ou se só puder ir substituindo o que existe à medida que se for estragando – é preferível usar até ao fim de vida do que substituir sem necessidade – há muito que pode fazer.
Vamos além das recomendações óbvias, mas ainda assim sempre válidas, de desligar os aparelhos e fechar torneiras enquanto não os usa.
Se a água da torneira demora a aquecer, pense em ter um jarro ou um alguidar para acumular a água que seria desperdiçada e aproveitá-la na rega de plantas ou nas limpezas. O mesmo pode ser feito na varanda, para aproveitar a água da chuva.
Use tomadas inteligentes para a televisão, a box e o router, para que só estejam ligados quando está em casa. As velas (verdadeiras ou em led) e as luzes de presença podem dar ambiente a uma sala sem gastar tanta energia.
Regule a temperatura da casa estrategicamente, recorrendo o mais possível às janelas no verão – abrir durante a noite e correr os estores durante o dia – e aos elementos têxteis durante o inverno – cortinas, tapetes, mantas – que fazem diferença. Escolha aquecedores eficientes, ligados apenas o tempo necessário para atingir e manter o conforto térmico.

Reduzir plástico e papel

Procure evitar papéis, seja em documentos, panfletos, livros de instruções, blocos de notas e outros. Sempre que for possível, recorra ao digital. E mesmo nesse contexto, reveja e elimine regularmente o que não faz falta, sem esquecer a cópia de segurança do que é importante.
Na mesma linha, reduza o máximo possível os plásticos de uso único em casa. [Saiba como neste artigo]

Usar até ao fim e evitar desperdício

Esta sugestão é válida em qualquer consumível, seja alimentar, de limpeza, cosmética ou higiene pessoal. Tente ter poucos produtos abertos, procurando acabar um antes de abrir o próximo. Não só poupa espaço como evita que os produtos se deteriorem e deixem de cumprir a sua função. Procure comprar apenas quando precisa. Se há algo que quer experimentar mas não tem a certeza se gosta, peça uma amostra ou compre um tamanho pequeno. Pelo contrário, se há produtos que já sabe que gosta e usa regularmente, compre os tamanhos maiores.
Quanto à despensa e ao frigorífico, devem ser geridos de forma sensata. Cada casa tem as suas necessidades, mas é sempre útil tirar uns minutos para refletir nos produtos a ter sempre em casa e com que frequência se compram os ingredientes necessários para a semana ou o mês. Periodicamente pode ser feita uma vistoria à despensa e frigorífico, deixando todos os produtos que se aproximem do limite do prazo dispostos num cesto num lugar de destaque, para ser utilizados o mais depressa possível. Bónus se se inspirarem no Masterchef para usar todos esses ingredientes na mesma refeição. Com um resultado comestível, de preferência.
Para os produtos frescos, os programas de combate ao desperdício de frutas e legumes, que vendem cabazes de vários tamanhos com produtos da época, podem compensar. Assim não só aumenta a variedade do que come, como também pode dividir o cabaz com amigos ou trocar com eles os elementos que não consome pelos que consome mais.
Ainda no tema de evitar o desperdício, substitua as decorações festivas por arranjos inspirados na natureza. Frutas, flores, conchas, pedras e pinhas podem dar decorações tão ou mais bonitas que as compradas, com o acréscimo do ritual de as fazer e de dedicar esse momento a mergulhar a casa no espírito da época. E tudo isto sem acumular tralha ou produzir lixo; tudo é consumível ou passível de ser devolvido à natureza.

Recorra mais à biblioteca

Pelo país fora há uma rede bastante abrangente de boas bibliotecas, com títulos não só antigos como recentes, além de jogos e outras atividades pada crianças e famílias. Se gosta de ler, sabe que há livros de uma vida que se revisitam dezenas de vezes, mas a maior parte é de leitura única. Para quê ficar com esses livros, se os pode requisitar na biblioteca e deixá-los disponíveis para agradar a outro leitor depois de lidos? Ou porque não trocar livros com amigos e descobrir autores aos quais não daria uma chance se estivesse a escolher livros numa livraria? O prazer da leitura também pode ser sustentável, mesmo para quem considera os suportes de leitura digital um sacrilégio e é viciado em livros verdadeiros, de papel.

Quando comprar, compre bom

Quando a solução é efetivamente comprar alguma coisa nova, prime pela qualidade. Tente encontrar a melhor versão do que procura, dentro do orçamento de que dispõe. Normalmente compensa comprar algo melhor, feito de bons materiais e melhor construído do que uma peça menos resistente à passagem do tempo. Isto vale para roupas e acessórios, que quando são bons podem ser remendados e reforçados muitas vezes antes de se desintegrarem, mas também para roupas de casa, móveis, eletrodomésticos e praticamente todos os objetos disponíveis em casa. Bons objetos duram mais e podem ter várias vidas, mesmo depois de deixarem de ser úteis para si.

Comece hoje a repensar a sua casa e a torná-la cada vez mais sustentável.

teresa | Auchan&Eu

Teresa Fernandes, Fisioterapeuta Instrutora de Yoga Suspenso, Gyrotonic e Gyrokinesis (aplicação na perda de mobilidade, prevenção de problemas músculo-esqueléticos, pré e pós-parto)