A depressão é um diagnóstico cada vez mais comum. Os sintomas mentais são em geral mais tidos em consideração, mas os sintomas emocionais e físicos são tão ou mais incapacitantes, pelo que os efeitos se instalam em todas as facetas da vida interferem com a capacidade de ser um membro ativo na sociedade.
O trabalho é para a maior parte dos adultos o contexto onde manifestam a sua vocação e a sua contribuição útil para a comunidade. Culturalmente, é das principais fontes de sentido de vida e o sítio onde se passa mais tempo acordado, ativo e em relação com os outros. No entanto, muitas vezes o trabalho deixa de ser fator de realização e passa a ser fator de risco.
Na literatura científica, existe uma relação claramente estabelecida entre fatores psicossociais associados ao trabalho e a depressão. Ambiente hostil, com más relações interpessoais, sobrecarga, sensação de insuficiência, falta de limites entre a vida profissional e pessoal ou falta de motivação. As armadilhas mentais e emocionais da cultura laboral podem extravasar para outras áreas da vida. Exemplos disso são a relação com o erro, a frustração e a perda, que podem levar a reações desproporcionais ou confusão entre erro e falha de carácter; e a conotação entre horas de trabalho e sucesso, que pode perverter a relação com o trabalho em si e o descanso, que é essencial como contraponto para a produtividade.
Apesar de variarem consoante o país ou a empresa, muitos destes fatores psicossociais assentam na mudança de paradigma do mercado de trabalho. O modelo de produção desenvolvido por Ford no início do século XX foi evoluindo para um modelo globalizado de rentabilização, flexibilidade e imediatismo, que assenta na pressão por resultados, competitividade extrema, recurso a mão de obra mais barata ou “voluntária” – estágios não remunerados, horas extraordinárias não contabilizadas – polivalência, acumulação de funções e mais trabalho distribuído por menos pessoas. A automação de muitos postos de trabalho trouxe a sobrecarga ao invés da libertação.
A mobilidade laboral pode trazer a possibilidade de uma vida melhor. Na outra face da moeda estão a mudança de estilo de vida e a deslocação para lugares longe da sua rede de suporte primária. Nestas mudanças de local o exercício e desenvolvimento de habilidades sociais pode ficar limitado, quer por barreiras linguísticas, quer por falta de tempo livre ou oportunidades de socializar livremente sem o fantasma do networking.
O esbatimento da linha entre casa e escritório, bem como a perda de disponibilidade temporal e mental para construir laços de suporte social significativos fora do trabalho acabam com a principal linha de defesa contra a depressão. Dá-se uma perda gradual de ferramentas para lidar com situações emocionalmente exigentes. No limite, essa perda traduz-se num estado depressivo, de perda de motivação e sentido de vida.
Emocionalmente, a sensação de trabalho eternamente inacabado, objetivos impossíveis de cumprir e desvalorização individual – a pequena roda dentada numa grande engrenagem – contribuem para a desmotivação. Principalmente se se tiver em mente a cultura de educação cada vez mais individualista, que defende que cada um é único e especial. O choque entre estas duas percepções não podia ser maior e traz conflitos emocionais que podem descambar em depressão.
- Como proteger a saúde mental no trabalho?
Há dois prismas de intervenção. Um cabe à hierarquia da organização e o outro a cada pessoa individualmente.
O suporte social no trabalho é apontado cientificamente como um fator de prevenção da depressão. Há benefícios para todos quando as chefias e os recursos humanos estão atentos ao bem-estar e à saúde mental, estimulando a comunicação de necessidades e tensões existentes, bem como oferecendo soluções, quer em casos particulares, quer a nível estrutural.
Mesmo em termos de produtividade, é preferível investir tempo e dinheiro na saúde mental do que lidar com as consequências a longo prazo de um mau ambiente de trabalho, e os custos que isso acarreta.
Quer seja através da empresa, quer a título pessoal, a ajuda profissional pode desempenhar um papel fundamental nos casos de depressão no trabalho. Um psicólogo ou um coach pode ajudar a encontrar ferramentas para estabelecer limites e estratégias para gerir a motivação e as emoções no contexto laboral. E não só. É importante avaliar o restante quadro da vida, para identificar se a depressão vem principalmente do contexto do trabalho ou se tem outros fatores de agravamento, para que todas as facetas da vida se alinhem e contribuam como e o quanto podem para melhorar a situação.
A nível individual, nem sempre é fácil, mas há algumas estratégias gerais para cuidar da saúde mental:
- Impor limites no tempo e espaço para o que é trabalho;
- Ter uma atitude positiva e de respeito por si próprio. Se for o primeiro a fazê-lo, está a dar o tom para os outros;
- Promover uma boa comunicação entre todos, com respeito e empatia, não alimentando intrigas ou mau ambiente e falando diretamente, com diplomacia, quando há algo a corrigir;
- Educar os colegas, superiores e clientes para esperar um tempo de resposta e uma disponibilidade razoáveis. Não responder a emails aos fins de semana e às 3h da manhã é um bom princípio;
- Sinalizar quando há uma exceção. Trabalhar ao sábado uma vez para um prazo apertado pode ser legítimo, mas não deve ser recorrente, pois é sintoma de não haver pessoas ou eficiência suficientes;
- Determinar até onde se misturam os mundos de lazer e trabalho. Aqui não há uma resposta definitiva, é legítimo misturar amizade com trabalho, mas isto não deve resvalar para conflitos ou falta de ética em nenhum dos contextos;
Por fim, ajuda ter uma vida para além do trabalho. Pessoal, familiar, social e comunitária. Essa diversidade de espaços pessoais cria um porto seguro onde se pode refugiar e pensar a cada momento se se está bem, e o que há a fazer para estar melhor. Muitas depressões vêm da falta dessa auto-consciência e reconhecimento das próprias emoções. Cada um deve tornar o seu bem-estar e saúde uma prioridade. Só assim é possível dar o melhor em termos profissionais.
Referências bibliográficas:
Corrêa, C. R., Rodrigues, C. M. L. (2017). Depressão e trabalho: revisão da literatura nacional de 2010 e 2014. Negócios em projeção, 8(1), pp. 65-74.
Netterstrøm, B., Conrad, N., Bech, p., Fink, P., Olsen, O., Rugulies, R., Stansfeld, S. (2008). The relation between work-related psychosocial factors and the development of depression. Epidemiological Reviews, 30(2008), pp. 118-132.

Teresa Fernandes, Fisioterapeuta Instrutora de Yoga Suspenso, Gyrotonic e Gyrokinesis (aplicação na perda de mobilidade, prevenção de problemas músculo-esqueléticos, pré e pós-parto)