Como ajudar alguém com depressão?

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A depressão é, a par da ansiedade, a perturbação mais comum da saúde mental que conhecemos. No entanto, ser frequente não a torna menos difícil de lidar, seja na primeira pessoa, seja ao lado de alguém próximo.


Segundo o relatório do Conselho Nacional de Saúde de 2019, 10% da população portuguesa sofria de perturbações depressivas. Esta percentagem pode ter aumentado em anos recentes, após a pandemia e as consequências da guerra na Europa. Portugal ocupa os lugares cimeiros dos países europeus no que diz respeito a novos casos de depressão e consumo de fármacos anti-depressivo
s. Um estudo de 2021 estabeleceu uma correlação entre a incidência de depressão e os períodos de crise económica em Portugal, o que corrobora a probabilidade de um aumento de casos na população nos próximos anos. Uma grande parte dos portugueses vai provavelmente deparar-se, ao longo da vida, com um ou mais episódios de depressão, seus ou de pessoas próximas.


Se tem alguém próximo deprimido, é importante ver-se como uma peça do puzzle que vai ajudar à sua recuperação. Os humanos são seres sociais, e a forma como recuperamos de agressões emocionais é através de uma rede de ajuda. Assim, regressar de uma depressão é um processo que conta com a colaboração de algumas pessoas, por vezes de toda a comunidade. Não caia no erro de ser a única pessoa disponível, antes faça por ser uma ponte para quem mais puder ajudar, e um apoio no que toca à motivação e à adesão ao tratam
ento.


O diagnóstico de depressão é feito por um profissional de saúde e assenta na persistência de alguns sinais e sintomas, de forma contínua, intensa e com consequências nas atividades diárias. O primeiro passo para ajudar alguém que pode estar a sofrer de depressão é reconhecer os sintomas e encorajar à procura de ajuda profissional.
Nesta fase, a ajuda foca-se em encontrar a ajuda disponível e com quem é possível estabelecer uma maior empatia. Uma vez encontrado o profissional, mostrar interesse pelas soluções propostas e motivar para a continuidade do tratamento podem fazer toda a diferença.

Num documento informativo sobre a depressão, publicado pelo USA National Institute of Mental Health (NIMH), a depressão é dividida em dois grandes grupos:

  • episódios de depressão major, que tipicamente duram cerca de duas semanas
  • depressão persistente, que tipicamente dura mais de dois anos.

Esta distinção é importante para todos compreenderem se se trata de um sprint ou de uma maratona, e ajustar as expectativas de acordo. Além desta distinção, há que ter em conta que o tratamento da depressão – considerando a combinação mais comum de fármacos e terapia com um psicólogo – demora algum tempo a fazer efeito (cerca de oito semanas), e esses efeitos podem ser primeiro sentidos nos sintomas acessórios, tais como o apetite ou a perturbação do sono, antes do humor deprimido.
Uma vez estabelecido o contacto com um ou mais profissionais que liderem o processo, o papel de quem está ao lado da pessoa deprimida é fundamental.
É nas pessoas próximas que se procura empatia, escuta e validação do mar de emoções que a depressão envolve. Esteja lá, escute e ajude a desembrulhar em palavras, memórias ou gestos as emoções que surgirem. Um dos maiores desafios é desenvolver a sensibilidade para encontrar a medida certa entre dar colo e incentivar a andar para a frente, ou mesmo sair da zona de conforto. É uma arte, sim, mas também é humano, e há algo de inato nessa relação.
Numa perspetiva mais prática, promover os hábitos saudáveis fundadores da boa saúde mental, tais como a higiene de sono, redução de comportamentos aditivos, boa alimentação e atividade física moderada. Combinar uma saída ao ar livre durante o dia normalmente é uma combinação vencedora face a uma noite de copos num bar.

Além disso, por desconfortável que possa ser, é importante continuar a convidar, mesmo nas fases em que a resposta mais comum seja um não. Sem ressentimentos, sem insistências cerradas, mas de forma leve, animada e empática.
Uma vez juntos, é importante relembrar à pessoa o quão agradável é a sua companhia. Conversem sobre temas que disponham bem, que saiba que vão provocar uma agradável distração ou um estímulo intelectual. Obviamente não há temas universais, e depende muito da pessoa. No entanto, temas como a morte, a tragédia ou os dramas alheios serão mais de evitar, e o humor, os temas mais gerais ou que puxem pelo gosto pessoal – música, cinema, literatura – são boas apostas para começar uma conversa fluida, que ajude a evitar padrões de discurso pouco saudáveis, tais como os auto-depreciativos ou derrotistas.
Uma nota sobre a tentativa ou intenção de cometer suicídio. É importante tomar seriamente estes comportamentos, falando sobre eles com o profissional de saúde assistente e seguir as recomendações deste.

teresa | Auchan&Eu

Teresa Fernandes, Fisioterapeuta
Instrutora de Yoga Suspenso, Gyrotonic e Gyrokinesis (aplicação na perda de mobilidade, prevenção de problemas músculo-esqueléticos, pré e pós-parto)

Referências bibliográficas:

Conselho Nacional de Saúde. Sem mais tempo a perder: saúde mental em Portugal, um desafio para a próxima década. Lisboa, CNS, 2019.
Coelho, I.L., Sousa-Uva, M:, Pina, N., Marques, S., Matias-Dias, C., Rodrigues, A. P. 2021. Crise económica em Portugal: Evolução de incidência de depressão e correlação com o desemprego. Acta Medica Portuguesa, 34(4), pp. 278-282.
US Department of Health and Human Services, National Institute of Mental Health. Depression. National Institutes of Health (NIH) 21-MH-8069, Bethesda, 2021.