Benefícios do sol

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Num país abençoado com tantas horas de sol, os dias longos levantam a moral. São um presságio de férias na praia ou campo, do tom canela na pele e das explosões de cor do sol poente.

Contudo, a relação que temos com o sol não é linear, sobretudo no que toca à saúde. A euforia e o prazer misturam-se com o medo e a cautela. Ao longo dos séculos a forma como se encara a exposição solar evoluiu. Enquadrar essa evolução ajuda a chegar a um ponto de equilíbrio nos dias de hoje.

Um vislumbre de História e Antropologia

Com o desaparecimento da camada espessa de pelo corporal nos hominídeos primitivos, a melanina entrou em ação, escurecendo a pele nas regiões mais próximas do equador, e empalidecendo as mais distantes. A necessidade de cobrir o corpo com roupa, primeiro por sobrevivência, depois também como expressão sociocultural, também alterou a disponibilidade da pele para receber a radiação solar.

Recuando apenas alguns séculos, nas sociedades em que era imposta a cobertura de todo o corpo com roupa, mesmo no verão, verificou-se a elevada prevalência de algumas doenças. Dois dos exemplos mais expressivos foram o raquitismo, associado à baixa fixação de vitamina D, e as manifestações mais intensas de tuberculose. Em plena era industrial, formas de raquitismo tinham uma incidência tão alta como 90% das crianças nascidas em ambiente urbano.

Foi em resposta a esses problemas de saúde que começaram a ser feitas experiências que comprovaram os benefícios da exposição solar, com resultados surpreendentes e tão fáceis de atingir.

É nesse momento da história que, no ocidente, a relação com o sol se inverte. O bronzeado, antes depreciado, torna-se valorizado. Deixa de ser um símbolo da inevitabilidade de trabalhar no campo, para ser um símbolo de estatuto de quem se pode dar ao luxo de viajar e estar ao sol em latitudes mais agradáveis.

Mas como em todas as modas, chegou-se ao outro lado do espectro. A excessiva exposição solar até meados do século XX teve consequências importantes, sobretudo ao nível do cancro da pele. O envelhecimento precoce da pele demasiado exposta ao sol também contribuiu para a decrescente popularidade da exposição solar mais agressiva.

É nesse contexto que a maioria da população adulta de hoje cresceu. A maior parte da informação divulgada acerca do sol e da exposição solar tem carga negativa. É feita num tom de prevenção dos perigos da exposição excessiva à radiação UV, bem como as suas consequências mais graves.

Nunca é de desvalorizar os méritos desta campanha, através da qual foi possível sensibilizar a população para uma exposição mais regrada, bem como diminuir a incidência de cancro de pele e aumentar a sua deteção precoce.

Na última década, no entanto, a explosão do uso generalizado da tecnologia e do maior número de horas passado dentro de edifícios, face ao tempo passado ao ar livre, voltou a levar-nos para o lado oposto do espectro.

Com a interminável rotina a impor-se cada vez mais sobre o tempo livre, sobram cada vez menos oportunidades para andar cá fora. Muitas pessoas dar-se-ão conta que passam dias e dias sem por um pé na rua, habituadas que estão a transitar de carro entre garagens e a trabalhar, comer e ter os seus tempos de lazer dentro de portas.

Por conseguinte, nos últimos anos, um dos grandes alertas de saúde diz respeito ao défice de aporte e fixação de vitamina D. Portugal, por extraordinário que pareça, não só não é exceção como tem uma prevalência bastante alta deste deficit. A vitamina D é essencial à fixação de cálcio e fósforo, não só determinantes para a saúde óssea, mas também para a transmissão de impulsos neuromusculares e outros processos metabólicos e imunitários fundamentais.

Por mais suplementação que se faça, por mais cuidado alimentar que se tenha, nada substitui o sol na fixação de vitamina D. A quantidade de exposição solar ideal para cada pessoa varia de acordo com alguns fatores, dos quais o tom da pele – peles mais claras fixam a vitamina D mais facilmente – e a quantidade de radiação UV – tipicamente maior em regiões mais perto do equador – são os mais preponderantes. No entanto, num mundo globalizado em que facilmente viajamos e nos estabelecemos em qualquer lugar, hoje em dia, a capacidade da nossa pele se expor ao sol pode não condizer com a intensidade do mesmo na região em que nos encontramos.

O défice desta vitamina faz-se sentir transversalmente a todas as faixas etárias, com sintomas como dores articulares e musculares, fraqueza, fadiga e alterações de humor. Estes sintomas, por serem genéricos e facilmente atribuíveis a uma rotina sedentária, à idade e ao excesso de trabalho, são muitas vezes desvalorizados. Mas será que uma parte da sua expressão não está ligada à vitamina D e à falta de sol?

A medida ideal

A ideia é atingir o equilíbrio na exposição solar. Reunindo os fatores relevantes – que podem incluir uma análise à quantidade de vitamina D no organismo e ao aporte dessa vitamina obtido pela dieta – pode-se estabelecer um ponto de partida, sabendo se é necessária uma maior exposição do que a atual.

Ainda assim, é importante rever os cuidados com a exposição excessiva ou em horas perigosas. O uso de protetor solar em caso de exposição prolongada ou no período crítico – 12h-16h – é fundamental. Melhor ainda se puder evitar este período mais intenso de radiação UV.

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A pele sensibilizada pelo sol, ou o comum escaldão, são sinais de que a exposição foi excessiva. Há que cuidar da pele se isto acontecer, e sobretudo preveni-lo.

Alguns bons princípios são a exposição gradual ao longo do ano – não passar das 12h de escritório para as 12h de praia diretamente – a exposição em horas mais amenas, de manhã e ao final do dia; e a manutenção da hidratação, de uma dieta saudável e variada, bem como de um bom cuidado da pele. Uma pele elástica e bem hidratada não é só mais bonita, é também mais saudável.

Uma nota relevante. A vitamina D não é tão facilmente fixada com protetor solar, pelo que parte da exposição deverá ser feita sem ele. Mas atenção, não nas horas de maior incidência de radiação UV. O ideal seriam 15-20 minutos de exposição solar ao início ou ao final do dia sem protetor.

Algumas ideias para desfrutar do sol de forma responsável
  • Andar ao ar livre alguns minutos todos os dias, mesmo no inverno
  • Fazer passeios na Natureza
  • Sair ao final da tarde para uma volta no bairro
  • Aproveitar as pausas no trabalho para vir cá fora
  • Almoçar num espaço verde ao pé de casa ou do trabalho
  • Fazer exercício ao ar livre
  • Estar numa esplanada com um livro ou caderno
  • Trabalhar e estar perto de uma janela, se tem que estar dentro de casa
  • Trocar a luz azul dos ecrãs por luz natural sempre que possível.

Por fim, há que relembrar a alegria que o sol nos traz. A luz natural e os dias mais longos nunca deixam de ser um convite à boa disposição e ao otimismo. Deixe-se contagiar e desfrute dos benefícios do Sol, com bom senso e sem medo.

Referências bibliográficas:
  1. Mead, N. (2008). Benefits of Sunlight: A Bright Spot for Human Health. Environmental Health Perspectives, 116(4): pp. A160-A167.
teresa | Auchan&Eu

Teresa Fernandes, Fisioterapeuta
Instrutora de Yoga Suspenso, Gyrotonic e Gyrokinesis 
(aplicação na perda de mobilidade, prevenção de problemas músculo-esqueléticos, pré e pós-parto)