A perda… o sofrimento… o Luto!!!

ae vs luto | Auchan&Eu
Abril 2024

Ao longo da nossa vida, várias são as perdas que temos de vivenciar. Umas são mais marcantes, outras são difíceis de ultrapassar, outras ainda permitem-nos crescer. A perda de algo gera um sentimento de vazio, gera sofrimento. No entanto, este é essencial para ultrapassar essa perda. Seja uma separação de alguém significativo, seja uma mudança de casa, uma mudança para um novo país, uma alteração de emprego, um aborto, uma doença terminal ou a morte de alguém querido, tudo isto são perdas e todas elas nos remetem para o processo de luto. O luto é uma resposta emocional a uma perda significativa. É um processo natural e um modo de recuperação face à perda.

Normalmente evitamos o que está associado a perdas e ao sofrimento que elas geram. Mas porque é importante falar sobre o luto? Porquê mexer numa questão tão sensível e dolorosa?

O luto é um processo que todos temos de passar perante uma mudança ou uma perda/morte. Por vezes é um processo rápido, outras vezes mais longo, mas essencial de ser feito para as perdas poderem ser integradas saudavelmente na nossa vida. Para isso é indispensável conhecermos a sua importância. Não se trata de um único sentimento, mas de um conjunto de sentimentos que necessitam de algum tempo para serem resolvidos e que não devem ser apressados. Perante qualquer perda, mas principalmente na morte de alguém querido, temos de passar por diferentes fases para que o luto seja saudavelmente integrado. Estas fases não são experienciadas de igual modo por todas as pessoas e variam consoante o tipo de perda. A duração de cada uma delas é variável. A primeira fase é a negação acerca do que está a acontecer, um sentimento de torpor ou dormência emocional. Esta sensação permite proteger da verdade inconveniente. Este pode inicialmente ajudar a levar a cabo todos aqueles procedimentos burocráticos inerentes a este processo, mas pode tornar-se num problema se continuar a subsistir. Posteriormente, ou mesmo em simultâneo vem a raiva, estando esta emoção presente juntamente com choque, angústia, desespero, medo, culpa e frustração. Podem estar presentes comportamentos agressivos por incapacidade de lidar e aceitar essa perda. Posteriormente vem a depressão, uma das fases mais intensas devido ao sofrimento associado. Passa-se para uma sensação de vazio onde a tristeza e o choro estão presentes. A vida pode deixar de fazer sentido, dando a noção de desorientação, de impossibilidade de preencher o vazio deixado pela pessoa que se perdeu. É importante perceber a dimensão emocional da perda, é preciso chorar e gritar para dar sentido à dor emocional. Nesta fase não se deve impedir as pessoas de demonstrarem o que sentem, mas sim incentivá-las. Além destes sentimentos, é comum a hostilidade, a solidão, a agitação, a ansiedade, a fadiga, bem como sensações físicas como vazio no estômago e aperto no peito. Outro sentimento comum é o sentimento de culpa. Nesta altura pode-se pensar em tudo aquilo que se podia ter feito ou dito e que já não tem retorno ou mesmo naquilo que podia ter feito para impedir essa morte. Esta é uma fase silenciosa, mas essencial à resolução do luto. À medida que o tempo passa, a angústia intensa resultante do luto começa a desaparecer. A depressão atenua-se e será possível finalmente começar a pensar noutros assuntos e até em projetos para o futuro. No entanto, o sentimento de perda nunca desaparecerá por completo. Nesta fase tem-se medo de se esquecer a pessoa que se perdeu, a saudade é maior, mas o que se atenua é a tristeza e não a lembrança. Não é necessário esquecer para ultrapassar, mas sim integrar essa perda na vida. À medida que o tempo vai passando, o choro e a tristeza vão diminuindo e a pessoa vai-se reorganizando, caminhando para a última fase, a aceitação. A pessoa começa a compreender e integrar a nova realidade. Aceitar a perda não significa seguir a vida como se a pessoa amada nunca tivesse existido. Aceitar significa saber viver com a perda, lidando com a saudade.

Estas fases são necessárias para a pessoa em luto compreender a magnitude de sua perda, expressar sentimentos e, enfim, encontrar a paz. O processo de luto é longo e com episódios normais de retrocesso e recaída (em caso de morte o processo dura cerca de 18 a 24 meses, até estar resolvido e integrado, sendo mais intenso nos primeiros 6 meses). O processo de luto não é patológico, mas sim uma resposta esperada perante uma perda. O luto é uma experiência emocional profunda, subjetiva e individual. O seu grau de intensidade vai depender de vários fatores e condições: do tipo de perda, da pessoa que se perdeu e da relação inerente, da personalidade da pessoa que está a fazer o processo de luto. Não podemos fugir a este processo de vida pois ele é essencial à adaptação à perda. A nossa condição humana pede-o, a saúde mental exige-o. Negar o sofrimento é sofrer duas vezes, perde-se o controlo, o rumo, o sentido da vida. Por vezes é difícil de conseguir e, quando impossível de se fazer sozinho deve-se procurar ajuda profissional.

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Catarina Moço
Psicóloga Clínica (OP 5069)