Finalmente, a reforma! Ou não? A ideia de parar de trabalhar, após um longo período de carreira, pode inicialmente soar como umas merecidas férias prolongadas. No entanto, nem sempre esta transição é pacífica. Existem muitas armadilhas de pensamento a ter em conta. Há que reconhecer e prever estas armadilhas e providenciar para que não aconteçam ou para que o seu impacto seja reduzido. Porque a reforma é muito mais do que simplesmente deixar de ir trabalhar.
O trabalho implica compromisso, sacrifício, preocupações e obrigações. Tem horas, tarefas e dependências várias, são dias e semanas ao ritmo da empresa, chefes, clientes, prazos e reuniões. É natural que com tudo isto venha o cansaço, a saturação e a desmotivação, o que até leva a reforma a parecer tentadora. Aquele tempo em que finalmente não vai ter horas para nada nem uma agenda limitadora.
Porém, trabalhar também implica um propósito, uma função, ser útil e necessário ao funcionamento de uma determinada comunidade ou empresa.
A perda desse propósito pode ser um grande fator de perda de sentido de vida na reforma e um dos impulsionadores de uma depressão ou de uma fase de apatia e indiferença perante a vida que aceleram o envelhecimento.
Isto acontece sobretudo se o trabalho ocupa uma grande carga horária do dia e da semana, e se é uma carreira em que é “tudo ou nada”, ou seja, em que não dá para encontrar um meio-termo entre estar dentro e fora de uma organização, a preparação da reforma é especialmente importante.
Aqui ficam algumas áreas em que pode pensar para planear uma reforma mais equilibrada e feliz:
Saúde
É fundamental cuidar da saúde durante a vida ativa. Esperar pela reforma para abordar todos os problemas que demoraram anos a instalar-se é um erro, sobretudo para os problemas graves que se tornam sérios quando são ignorados por demasiado tempo.
Se for esse o caso, a transição para a reforma ficará marcada por uma decadência da saúde, que muitas vezes corresponde a uma decadência que já lá estava, mas era disfarçada pela vida atarefada no contexto laboral, o sentido de propósito e a distração que essa missão proporcionava.
Faça as consultas e exames regulares que tem a fazer, não adie diagnósticos e avaliações de sintomas que surjam, não se deixe levar pelo que considera “normal da idade”. Aja sobre os problemas antes que estes se imponham na sua vida.
Finanças
Assegurar um futuro financeiramente estável na reforma não é algo que surja do dia para a noite. Invista na sua educação financeira, para entender como e onde gasta o seu dinheiro, quais os investimentos que deve fazer e qual será a sua condição financeira quando se reformar. Em geral, na reforma pode-se perder uma fatia considerável dos rendimentos, mantendo um custo de vida que não desce numa proporção equivalente.
Informe-se, veja as várias ofertas de poupança e investimento, e escolha o quanto antes as opções – ter mais que uma e diversificar são bons princípios – que se adequem à sua tolerância ao risco, às suas possibilidades e às suas necessidades.
Numa vertente mais caseira das suas finanças, analise os gastos que faz hoje diariamente, repense e renegoceie estrategicamente aquilo que for possível para otimizar cada despesa. Simule o que se alteraria se se reformasse, quer os gastos que diminuiriam – transportes, refeições fora – quer os que provavelmente iriam aumentar, como a saúde.
É o momento ideal para planear algo que queira fazer e começar a poupar para esses projetos, sejam eles viagens, universidade sénior, ajudas aos netos ou atividades lúdicas.
Propósito
Este é talvez o ponto mais importante, mas também o mais vasto. Pense de que forma quer contribuir para a comunidade – em sentido restrito ou alargado – e ponha em marcha os seus planos. Envolver-se em iniciativas que ajudem outros é algo que facilmente se torna gratificante e proporciona um sentido de missão.
Outra área que pode privilegiar é a aprendizagem de algo novo. Nesta fase da vida é mais fácil olhar para trás e ver aquelas áreas de conhecimento que sempre despertaram o seu interesse, mas que nunca teve oportunidade de desenvolver. Procure uma ou mais dessas áreas e dedique-se ao seu estudo.
Melhor ainda se esse estudo implicar o compromisso de aulas e o envolvimento com o seu grupo de estudo. Não só cultiva novos interesses como conhece outras pessoas e estrutura a sua rotina.
Estilo de vida
Falando em rotinas, a transição para a reforma é um convite para rever as suas. Não caia no erro de desleixar essa vertente da vida. É possível ter uma rotina sem ser escravo dela, como poderia sentir noutras alturas da vida.
Mantenha hábitos saudáveis, como acordar, deitar e comer a horas regulares, uma dieta maioritariamente saudável, exercício, contacto com a Natureza, leitura e convívio, que são fundamentais para uma vida saudável.
E se isto é válido para qualquer idade e fase da vida, é especialmente importante na reforma, quando se abandona um dos grandes consumidores de tempo que é o trabalho. Ao início será um sério desafio preencher aquelas oito ou mais horas diárias de uma forma satisfatória, e é algo que com tempo poderá ir aprendendo e ajustando.
Idealmente, o ganho de rotinas saudáveis e outros interesses para além do trabalho é algo que deve ser trabalhado muito antes da reforma, para que tenha tempo de experimentar e deixar que os hábitos se vão instalando aos poucos na sua vida e proporcionem uma transição mais suave. Caso contrário, começar tudo do zero ao mesmo tempo pode tornar-se avassalador e levar à desistência, o que não augura nada de bom.
Contudo, é importante lembrar que haverá sempre um momento em que cai a ficha, mesmo quando se tomam medidas para elevar a qualidade de vida na reforma atempadamente. Haverá sempre um período de adaptação, até de choque em alguns casos, em que será difícil gerir as emoções e a auto-estima decorrentes dessa fase da vida – como de resto acontece em muitas transições, mas a reforma, por estar mais próxima da morte, é geralmente mais marcada por medo e tristeza – e passar por essa dificuldade é normal.
Mas a grande diferença está na duração e resolução desse impasse. Se os planos para uma transição suave e com significado já estiverem em marcha, essa fase será muito mais fácil de lidar, dado que já plantou as sementes de muitas ajudas para encarar o futuro com mais otimismo.
Comece hoje a implementar as mudanças que lhe darão alegria e qualidade de vida.

Teresa Fernandes, Fisioterapeuta
Instrutora de Yoga Suspenso, Gyrotonic e Gyrokinesis (aplicação na perda de mobilidade, prevenção de problemas músculo-esqueléticos, pré e pós-parto)