Erva doce: mais do que o aroma das nossas tradições

A erva doce ou anis (Pimpinella anisum) é originária do Egito e da Grécia. Pertencente à família Apiaceae, tal como a cenoura, o funcho e a salsa. Possui folhas recortadas, flores brancas pequenas, que florescem principalmente no Verão e pequenas sementes de tom amarelado. Tanto as suas folhas como os seus grãos são comestíveis, enquanto que o seu óleo, extraído a partir da destilação dos grãos é essencialmente aplicado em cosmética, perfumaria e aromaterapia1.

Devido ao seu aroma adocicado e intenso, é frequentemente utilizada nas tradições Natalícias e Pascais dos portugueses, principalmente em pastelaria e padaria, além de ser um excelente intensificador de sabor de castanhas, licores e infusões.

Nutricionalmente, a erva doce é fonte de proteína e de fibra, além de possuir um alto teor de minerais como cálcio, ferro, magnésio, fósforo e potássio, e ainda são fonte de vitaminas C e do complexo B (tiamina, riboflavina, niacina)2. Uma colher de sopa contém um aporte nutricional considerável, no entanto, as quantidades adicionadas à maioria das receitas são bastante reduzidas, e nesse sentido são insuficientes para atingir todos os seus benefícios.

Desde a sua origem a erva doce é empiricamente conhecida pelas suas imensas características fitoterapêuticas, nomeadamente:

Efeito na obstipação

Originariamente a erva doce era consumida em chás e bolos após as refeições principais com o objetivo de facilitar a digestão, além de reduzir o inchaço e flatulência. Estas melhorias no trânsito intestinal (efeito laxativo, aumento de evacuações diárias e redução da flatulência), têm-se vindo a comprovar, estando associadas à presença de anetol, principal fitoquímico da erva doce1. Como sugestão, experimente consumir castanhas acompanhadas de um chá de erva doce, além de potenciar o sabor da castanha, ainda beneficia da redução do desconforto intestinal.

Efeito no sistema gastrointestinal

Estudos em animais referem que as sementes de erva doce podem ajudar a prevenir úlceras gástricas e reduzir os sintomas, isto porque verificou-se que provoca a redução da secreção de ácido gástrico1,3.

Propriedades antimicrobianas e antifúngicas

As sementes e o óleo de erva doce apresentam propriedades antimicrobianas, graças aos seus fitoquímicos, principalmente o anetol, que inibe o crescimento fúngico e bacteriano, nomeadamente a bactéria da cólera4.

Efeito analgésico, anti-inflamatório e antioxidante

O óleo de erva doce mostrou efeito analgésico significativo semelhante à morfina e à aspirina e tem efeito anti-inflamatório tão forte quanto a indometacina e aspirina1. Distingue-se ainda pelo seu efeito antioxidante, visível na redução da inflamação e prevenção dos danos oxidativos promotores de doenças crónicas (doenças cardiovasculares, cancro e diabetes). Além de se observar, ao suplementar diariamente com erva-doce, uma diminuição significativa de colesterol sanguíneo e triglicerídeos, devido à presença de compostos antioxidantes (β-caroteno e vitamina C) na erva doce associados a uma diminuição significativa na peroxidação lipídica em hemácias e plasma sanguíneo1,5.

Efeitos em pacientes diabéticos

Estudos realizados em pacientes diabéticos tipo 2 mostram que, quando administrada erva doce diariamente verifica-se uma diminuição (36%) da glicose no sangue, em jejum, e melhorias da função nas Ilhotas de Langerhans (células pancreáticas produtoras de insulina)1,6.

Efeito redutor de sintomas da menopausa

Um dos sintomas mais frequentes da menopausa são as ondas de calor, que provocam desconforto diário. Tem-se vindo a constatar que a suplementação com óleo de erva doce provoca uma redução significativa na frequência e intensidade das ondas de calor. Estima-se que o anetol, produz no organismo, os mesmo efeitos que o estrogénio reduzindo eventualmente a perda óssea gradual potenciada por essa redução hormonal, característica da menopausa7. Num estudo em que 72 mulheres com ondas de calor tomaram um placebo ou uma cápsula de erva doce, aqueles que tomaram erva doce experimentaram uma redução de quase 75% na gravidade e frequência das ondas de calor8.

Efeitos Adversos

Os efeitos adversos surgem em indivíduos alérgicos à semente de anis ou quando ultrapassam a dose tolerada, isto é, doses até 20 gramas por dia de pó de semente de erva doce são consideradas seguras para adultos saudáveis, em relação ao óleo não deve ultrapassar cinco gotas de óleo essencial a cada dose e as doses diárias não podem ser mais que três. Em excesso, o óleo de erva doce poderá provocar hipersensibilidade cutânea, respiratória e gastrointestinal.
A suplementação de erva doce deverá ser evitada em indivíduos que tomem anti-inflamatórios não esteróides e corticóides, dado que poderá afetar metabolicamente. Da mesma forma é de evitar em grávidas e mulheres com patologias hormonais (cancro da mama ou endometriose), visto que esta erva tende a interagir com a produção de estrogénio1,9.

A erva-doce demonstra-se amplamente eficaz, todavia, é de ressalvar que as quantidades aplicadas em estudos são significativas (5-7g de sementes de erva doce e 3-5 gotas de óleo) e na sua maioria desenvolvidos em animais. Portanto, serão necessárias mais pesquisas científicas em seres Humanos, e mais tarde, aproveitar os compostos bioativos desta erva para produzir novos medicamentos.
Até lá, pode sempre usufruir dos benefícios gastronómicos da erva doce aproveitando o seu sabor tão característico.

Conheça as nossas sugestões de receitas com erva-doce:

Referências bibliográficas:
  1. Asie Shojaii and Mehri Abdollahi Fard. Review of Pharmacological Properties and Chemical Constituents of Pimpinella anisum. 2012
  2. Food Data Central. Anise Seeds
  3. Ibrahim A Al Mofleh, Abdulqader A Alhaider. Aqueous suspension of anise “Pimpinella anisum” protects rats against chemically induced gastric ulcers.2007
  4. Ivan Kosalec, Stjepan Pepeljnjak, Danica Kustrak.Antifungal activity of fluid extract and essential oil from anise fruits (Pimpinella anisum L., Apiaceae).2005
  5. Philip Hunter. The inflammation theory of disease.2012
  6. Bashir Ahmad Sheikh et al.Trans-anethole, a terpenoid ameliorates hyperglycemia by regulating key enzymes of carbohydrate metabolism in streptozotocin induced diabetic rats. 2015
  7. Leandro Rocha e Caio P. Fernandes .Chapter 22 – Aniseed (Pimpinella anisum, Apiaceae) Oils.2016
  8. Nurhayat Tabanca, Shabana I Khan, Erdal Bedir et al.Estrogenic activity of isolated compounds and essential oils of Pimpinella species from Turkey, evaluated using a recombinant yeast screen.2004
  9. S. Ashraffodin Ghoshegir et al .Pimpinella anisum in the treatment of functional dyspepsia: A double-blind, randomized clinical trial.2015

Daniela Cação, Nutricionista Auchan
Membro da Ordem dos Nutricionistas nº4295N

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