Como gerir a família em isolamento

Com o desenvolvimento da pandemia de COVID-19, em Portugal, nos últimos dias, medidas até agora consideradas por muitos como excessivas, e causadas por algum alarmismo, parecem tornar-se cada vez mais reais. E de cada vez maior importância para prevenir o contágio massivo.
Neste contexto, muitas famílias dão por si a ter que ficar em casa. Partilhar o espaço comum, em que cada um tem que ocupar o seu tempo, seja em trabalho ou entretenimento, sem criar um verdadeiro ataque de nervos pode ser um desafio.

Veja algumas dicas para gerir a família no isolamento e manter o equilíbrio

Há que fazer a ressalva que algumas destas dicas não se aplicam a quem está de facto com sintomas de infeção, e tem que cumprir regras mais restritas de isolamento, inclusive do resto da família.

Procurar respeitar o espaço de cada um

Durante o dia, e sobretudo se há adultos em casa a trabalhar, é bom tentar reservar o espaço de cada um, para que não seja interrompido nas suas tarefas e não causar atritos familiares. Se necessário, estabeleça horários, ou períodos em que não se devem interromper uns aos outros. Isto pode ser um grande desafio quando se tem crianças pequenas, mas um pouco de imaginação pode ajudar, como:

  • um “portal mágico” que transporta os pais para outra dimensão por algumas horas
  • uma pequena caixa de correio colocada à porta para “notícias importante, desenhos e afins”

Podem ser uma maneira de, sem deixar de manter a vigilância da criança, conseguir alguns momentos de concentração para adiantar trabalho.
Estabelecer locais e horários para cada um também pode funcionar para os adolescentes, na utilização dos espaços comuns, dos computadores ou de plataformas de “streaming”. Se há conflitos constantes quanto à ocupação do espaço, é mais fácil entrar num clima de saturação o que, aliado ao tédio e à frustração de não poder sair de casa e estar com outras pessoas, pode tornar a vida de todos mais difícil.

Comunicar com o exterior, sim, com equilíbrio

A utilização de plataformas online e redes sociais para comunicar pode ser um bom escape ao isolamento, por permitirem o convívio, ainda que virtual, com outros. O contacto com a restante família também deve ser estimulado. Habituados a olhar apenas para si próprios, e para os seus pequenos grupos de amigos, os jovens beneficiam do ganho de sentido de comunidade e de preocupação com o outro.

Por outro lado, há que tirar partido dos momentos em que estão todos juntos, como as refeições. O final do dia pode ser a altura ideal para uma atividade em família. Nessas alturas, é importante evitar as redes sociais e as distrações. Há que dedicar a cada coisa o seu tempo, mesmo que o espaço de circulação seja limitado.

Viver em comunidade

Em situações de isolamento num espaço confinado, é bom que todos possam desfrutar da casa sem ter que arrumar ou limpar antes. Assim, é bom reforçar as regras básicas de uso do espaço, que se resumem a deixá-lo pronto a utilizar, e como gostariam de o encontrar. Isto é especialmente válido nas áreas comuns, como a sala ou a cozinha. Arrumar ou limpar, pouco de cada vez, é infinitamente mais fácil que deixar descambar e ter que passar toda uma tarde em limpezas.

Aceitar o tédio

Curiosamente, um dos desafios do nosso tempo é lidar com o tédio, mais que natural na espécie humana. Na nossa era, é obrigatório tomar cada segundo do dia com uma atividade e há medo de se perder o fio à meada do que se passa no mundo, por não estar constantemente “ligado”. Nem as crianças podem ficar paradas. Assim, o tédio torna-se o primeiro inimigo a combater. Mas não tem que ser assim.

Não será diferente dos outros hábitos, visto que se passa pela fase do desespero e da sensação de inutilidade, antes de aprender a desfrutar do tédio e do bem que ele traz. Na realidade, o tédio é uma espécie de silêncio mental, que dá espaço de manobra para outras capacidades importantes, como a criatividade e a resolução de problemas. Estas não podem ser devidamente estimuladas, quando se está constantemente a mudar o foco de uma coisa para a outra.

Aproveitem este tempo, crianças, adolescentes e adultos, para aprender a conviver com o tédio e para aceitar que não se tem que estar sempre a fazer alguma coisa, a ver alguma coisa ou a falar com alguém. Todos estão familiarizados com aquela necessidade que se tem quando se está num pico de stress: “só queria um dia para não fazer absolutamente nada”. Pois esse dia chegou, e com ele a oportunidade de aprender a não fazer nada e a beneficiar desse tempo. Vai custar no início, mas a sanidade mental vai agradecer.

Manter algumas rotinas

Passar alguns dias em casa pode soar a férias, mas é saudável manter alguma estrutura nos dias. Acordar relativamente cedo, vestir-se, fazer refeições a horas e manter rotinas de estudo, trabalho ou exercício é benéfico e ajuda a passar o tempo. Claro que o fim de semana, ou algumas tardes, podem ser de preguiça, ou reservadas para outras atividades, que não entrariam na rotina diária normal.

Há muitos vídeos online, que sugerem pequenos treinos em casa, com grande variedade no tipo de exercício e no grau de dificuldade. Aproveite para, dentro do razoável, experimentar coisas novas, ou trabalhar num objetivo específico. Seja de força, flexibilidade ou coordenação. Trinta minutos de exercício moderado diário podem fazer maravilhas, não só pelo corpo, mas também pela mente.

Aproveite para as “empreitadas” em casa

Anda há meses para reorganizar o guarda-roupa? Tem pequenos arranjos em casa que nunca arranjou tempo para fazer? Quer finalmente “destralhar” e ver-se livre de coisas que já não usa? Aproveite este tempo, e o envolvimento de toda a família, para estes projetos. Pode ter que vencer alguma resistência mas, no final, é certo que todos sentirão a melhoria do ambiente em casa. Afinal, não tropeçar constantemente em tralha dá uma pequena ajuda à clareza mental. E uma casa em que tudo funciona é muito mais fácil de utilizar e mais agradável para viver.

Ter que ficar em casa e evitar contacto social não seria certamente a vontade da maioria das pessoas. No entanto, já que este contexto se apresenta, procure tirar o maior partido possível dele, contribuíndo para a união e a felicidade da família, com menos sentimentos de frustração e conflito.

Teresa Fernandes

Fisioterapeuta Instrutora de Yoga Suspenso, Gyrotonic e Gyrokinesis (aplicação na perda de mobilidade, prevenção de problemas músculo-esqueléticos, pré e pós-parto)