Dosear as redes sociais para o bem da auto-estima e da saúde mental

Dosear as redes sociais pela sua autoestima

As redes sociais fazem parte da vida da maioria das pessoas, hoje em dia. Proporcionam oportunidades de ligação, manutenção de relações sociais e o contacto com amigos distantes. Além de facilitar o conhecimento de mais pessoas e contribuir para a construção de uma rede de suporte social e de negócios.

Com efeito, esta exposição ao mundo implica algumas regras tácitas.

Tais como a apresentação de um perfil devidamente filtrado, com opiniões e gostos geridos com o cuidado de passar determinada imagem para os outros. Em maior ou menor grau, esta curadoria de imagem acontece transversalmente nas redes sociais, sobretudo em adolescentes e jovens adultos.

A interação com as redes sociais tem efeitos diretos na vida real. Quer ao nível da autoestima e autoimagem, quer ao nível da saúde mental.

Um estudo de 2011, com uma amostra de estudantes universitários, concluiu que o número de amizades no Facebook aumentava a sensação subjetiva de bem-estar. Não pelo facto de o utilizador sentir uma maior rede de suporte social, mas por outras vias. Possivelmente, pela perceção de um score elevado no “jogo” da rede social. A apresentação positiva de si próprio traz também um aumento da perceção subjetiva de bem-estar, mais uma vez completamente separada da noção de rede de suporte social.

Por outro lado, uma apresentação honesta de si mesmo, com altos e baixos ao longo do tempo, traduzia-se em real apoio por parte dos amigos do Facebook. Contribuindo para uma noção positiva de rede de suporte social, mas não para a perceção subjetiva de bem-estar.

Resumindo, nem sempre a noção de rede de suporte social real e a autoimagem rumam no mesmo sentido

Pelo menos no que toca às redes sociais. Pode-se obter real apoio dos amigos virtuais. Mas, para isso, terá que se apresentar um perfil honesto e não tendencioso. O que, por sua vez, afeta negativamente a autoestima.

Um conjunto de recomendações da Sociedade Americana de Pediatria alerta para alguns riscos das redes sociais, para as crianças e os adolescentes.

No entanto, refere também os benefícios trazidos por estas, como sejam:

  • facilidade de comunicação com os pares
  • troca de ideias
  • conhecimentos e desenvolvimento de projetos

Por outro lado, fenómenos da vida real também têm expressão virtual, nomeadamente:

  • “Bullying”
  • Experimentação sexual
  • Assédio online
  • Exposição ao ridículo ou à vergonha
  • Invasão de privacidade

Estes são problemas sérios e vão para além do uso saudável destas plataformas. As crianças e jovens devem ser alertados e educados para não tomarem parte destas ações. Assim como denunciar quando as detetam e a protegerem-se contra elas.

Finalmente, uma revisão de 2016 avaliou vários estudos, no âmbito dos efeitos do uso das redes sociais na saúde mental. Tendo concluído que há consequências diretas.

Estes efeitos são bilaterais, havendo uma relação direta entre a qualidade de interação nas redes sociais e os seus efeitos. Assim, uma interação positiva traz efeitos positivos, enquanto as interações negativas trazem efeitos negativos. Não foi possível encontrar um padrão sólido em relação ao número de horas de uso e ao número de amigos.

Estas conclusões alertam para o facto de haver uma relação muito estreita e direta entre os resultados das interações em redes sociais e a saúde mental dos utilizadores. E é esta relação sem filtro, entre o mundo online das redes sociais e os efeitos na vida real offline que deve ser uma preocupação.

Há que educar os jovens – e os adultos – para o enriquecimento dos laços sociais reais e ao vivo. Assim como a procura de projetos satisfatórios, que proporcionem sentido à vida, e que não passem pela internet.

É importante, sobretudo em crianças e jovens, que haja outras dimensões de convívio e suporte social.

Que sustentem e ajudem a mediar estes efeitos, para que eles não sejam tão diretos. Um episódio negativo online não deverá ser suficiente para derrubar todas as defesas de autoestima e perceção de valor social. E muito menos para levar a comportamentos de risco e perigosos para a saúde física e mental.

Sendo assim, as redes sociais por si só não são algo de mau ou prejudicial na vida das pessoas.

É antes a falta de mediação entre o que acontece nelas e os efeitos reais que se torna uma preocupação. Uma boa forma de enriquecer a autoimagem, e melhorar a saúde mental, é envolver-se em atividades que fortaleçam laços reais. Tais como voluntariado ou a simples ajuda a um membro da família ou a um amigo, sem envolver interações virtuais.

Relativizar o que se vê online também é um bom treino. No sentido de perceber e considerar a quantidade de trabalho envolvido na publicação de uma fotografia versus a situação real em que foi tirada. Tal como acontece nas fotografias de casas que parecem amplas e luminosas, mas que na realidade são pequenas e escuras, cheias de defeitos habilmente escondidos pela câmara.

Perfis como o da britânica Celeste Barber, que imita de forma realista algumas das fotos emblemáticas publicadas em redes sociais, ajudam a manter os pés assentes na terra, com humor. Assim como a relativizar os conteúdos observados, potencialmente reduzindo o seu impacto negativo na autoestima.

Fazer o exercício de reduzir as publicações também é interessante, pois permite viver os momentos especiais sem a pressão de os ver como uma apresentação para um público virtual.

Por fim, a limitação do tempo passado online ajuda a concretizar os tais projetos mais relevantes e mais reais. Bem como à ligação pessoal com os amigos, à atenção plena e à experiência de viver no momento. Quem nunca esteve à mesa com amigos, distraído a ver o telemóvel, que atire o primeiro like.

Referências bibliográficas:

• Kim, J., Lee, J. R. 2011. The Facebook Paths to Happiness: Effects of the Number of Facebook Friends and Self-Presentation on Subjective Well-Being. Cyberpsychology, Behavior and Social Networking, 14(6). DOI: 10.1089/cyber.2010.0374
• O’Keefe, G. S., Clarke-Pearson, K. 2011. Clinical Report The Impact of Social Media on Children, Adolescents, and Families. Pediatrics, 127(4) 800-804.
• Seabrook, E. M., Kern, M. L., Rickard, N. S. 2016. Social Networking Sites, Depression, and Anxiety: A Systematic Review. JMIR Mental Health, 3(4):e50. DOI: 10.2196/mental.5842.
• Gonzales, A. L., Hancock, J. T. 2011. Mirror, Mirror on my Facebook Wall: Effects of Exposure to Facebook on Self-Esteem. Cyberpsichology, Behavior and Social Networking, 14(1-2), DOI: 10.1089/cyber.2009.0411.
• Lup, K., Trub, L., Rosenthal, L. 2015. Instagram #Instasad?: Exploring Associations Among Instagram Use, Depressive Symptoms, Negative Social Comparison and Strangers Followed. Cyberpsichology, Behavior and Social Networking, 18(5). DOI: 10.1089/cyber.2014.0560.

Teresa Fernandes, Fisioterapeuta
Instrutora de Yoga Suspenso, Gyrotonic e Gyrokinesis (aplicação na perda de mobilidade, prevenção de problemas músculo-esqueléticos, pré e pós-parto)

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