“Destralhar” a casa e mantê-la livre de nova tralha

Destralhar a casa e mantê-la assim!

O verbo destralhar é uma tradução livre de declutter, usada pela autora Paula Margarido no seu livro Destralhe a sua casa. Neste livro, bem como em outros focados no tema, e recentemente popularizados pelo fenómeno Marie Kondo, discute-se os malefícios da tralha em geral.

E o que se pode incluir na tralha?

Tudo o que sejam objetos a mais que ocupam espaço precioso, duplicados ou múltiplos:

  • coisas que se guardou “para o caso de serem necessárias”
  • equipamentos que não são utilizados
  • meias e outros sem par
  • objetos estragados sem esperança de reparação

Enfim, tudo o que tem uma relação espaço/uso pouco vantajosa. São objetos cujo uso não vale o espaço que ocupam e o tempo/dinheiro gastos, a cuidá-los e mantê-los.

Mas o mais interessante é que esta tralha física também pode ter consequências psicológicas

Na medida em que, num espaço sobrelotado de coisas, é comum ficar-se assoberbado, com uma sensação de opressão e redução da liberdade. Isto traz sentimentos de inércia e desmotivação, levando a atitudes de procrastinação, resignação e estagnação. Não só no ambiente físico da casa, como na vida em geral.

Ambientes mais arejados e menos saturados de objetos encorajam a ação, estimulam a criatividade e libertam os habitantes. Física e emocionalmente, para novas iniciativas e novos entusiasmos.

Como “destralhar”

Há vários caminhos para chegar a Roma mas, no caso de destralhar, a maioria dos autores sugere que se comece por um espaço pequeno. Por exemplo, uma gaveta ou uma secção do armário. Isto em vez de esvaziar completamente a divisão ou o móvel. Aliás, como sugere Marie Kondo no seu método. A ideia é, mais uma vez, não desanimar nem ficar assoberbado. Gaveta a gaveta, móvel a móvel, divisão a divisão, tudo se faz.

Após ter os objetos pertencentes a essa secção à sua frente, primeiro deve completá-los com outros que se enquadrem e possam estar espalhados pela casa.

Por exemplo, se está a “destralhar” uma gaveta de camisolas, não se limite às que estão lá nesse momento. Assim, reúna as que estão para lavar ou à espera de ser engomadas, as que estão na entrada ou na bagageira do carro. Assim tem um quadro mais completo do que realmente possui.

O segundo passo, já com todos os objetos em jogo, é separá-los em três pilhas principais:

  • peças para manter
  • peças para doar
  • lixo

Adicionalmente, pode ter uma pequena secção de peças para arranjar ou remendar, que após o arranjo (célere) deverão ser mantidas ou doadas. E ainda uma caixa do “talvez”, isto é, objetos acerca dos quais não tem a certeza se quer ou pode doar. Esta última pilha deve ser muito pequena, e tem prazo de validade. Assim, a caixa em que se encontra deve ser fechada e mantida longe da vista durante um mês. Se após esse tempo, não teve que abrir a caixa, nem olhe para ela e junte-a à pilha para doar.

Uma última pilha corresponde a objetos que não fazem parte daquele espaço específico. Por exemplo, se guarda velas para bolos de aniversário no guarda-roupa, ou qualquer outra combinação insólita de objeto-espaço, separe esses objetos. Pode então colocá-los num local mais adequado.

Marie Kondo, nos seus livros, sugere que se segure cada peça e se sinta se esta traz alegria.

Sugere também que se agradeça à peça os bons momentos que nos proporcionou. A maior parte da população poderá não querer ir tão longe com os seus objetos. Mas há, nestes atos, algo que se pode retirar. Se um livro ou uma peça de roupa, por exemplo, já não nos traz sensações ou memórias particularmente agradáveis e vontade de os usar ou ler novamente, provavelmente pertencem à categoria da doação.

Em relação à pilha do lixo, tenha o cuidado de reciclar o que pode ser reciclado. E reutilizar o que pode fazer sentido noutro contexto. Uma t-shirt velha e não “doável”, por falta de condições para ser usada por outra pessoa, pode e deve ser cortada em quadrados e servir para panos de limpeza. Só há uma regra: não procrastinar. Se há roupas velhas que podem vir a ser panos, pegue na tesoura e deite mãos à obra, antes que essas peças fiquem a fazer monte à espera de melhores dias.

No final de todas as pilhas separadas, dê-lhes destino o mais rapidamente possível.

De preferência no mesmo dia. Assim não dá lugar a arrependimentos e ao eternizar de caixas de tralha à porta. Ao invés de tralhas espalhadas pela casa. Depois da casa destralhada, há que manter.

Faça uma reflexão sobre o uso que dá aos objetos

Sente-se por um momento com uma chávena de chá e pense no seguinte. Quantas pessoas vivem em sua casa, e quão frequentemente tem visitas? Isto ajuda a pensar em quantidades necessárias, por exemplo, de toalhas, lençóis, talheres e loiças. Se são quatro pessoas em sua casa, fará realmente sentido ter 12 conjuntos de lençóis, 15 toalhas de banho, 23 tupperwares e talheres para 36 pessoas? Provavelmente não.

A maioria dos autores sugere dois conjuntos de lençóis por cama e duas toalhas por pessoa (se tiver máquina de secar pondere reduzir estes a metade). Adicione um ou dois conjuntos de cada, para visitas.

Se um dia tiver uma grande festa do pijama em casa e não está munido de lençóis, certamente poderá pedir a cada convidado que traga os seus. Ou pedir emprestado a alguém. Se vai dar um jantar em grande escala e as suas louças não são suficientes, use a criatividade e coordene-se com convidados, ou a família, para poder reunir tudo. Não faz mal não ter uma reserva para tudo o que “der e vier”. Afinal, ninguém é obrigado a ter centenas de objetos em casa que, na melhor das hipóteses, saem do seu sítio uma vez por ano.

Outro ponto de reflexão é dedicado aos consumíveis.

É certo que, por vezes, faz sentido aproveitar uma promoção e comprar em quantidade algo que se usa com frequência. Como sejam os detergentes. No entanto, não faz sentido aplicar essa lógica a todos os produtos.

Pense em quantos perfumes tem “a uso”. Se lhe parecem demasiados, comprometa-se a passar os próximos meses a desfrutar dos que tem, sem comprar novos. A mesma estratégia pode ser usada com cremes, maquilhagem e até livros, consumindo com gosto o que se tem em casa, antes de correr a comprar novos produtos. Não só desperdiçará menos, como adiará o momento da compra. E provavelmente a quantia gasta nesses produtos ao longo do ano será menor, uma vez que gastou o que tinha, antes de repor. Em vez de manter múltiplos do mesmo produto em fila à espera da sua vez.

Tenha uma wishlist e pense bem antes de comprar

A propósito de adiamento de compras, manter uma lista de desejos consigo, sempre que vaguear pelas lojas, pode ajudar a pensar mais racionalmente nas suas escolhas. Quantas vezes se apercebeu que comprou algo por impulso, e que se fosse hoje em dia não compraria? A lista serve para isso mesmo. Ao escrever sobre o que gostaria de comprar, já está a dar uma recompensa ao cérebro, não tão satisfatória, mas semelhante a uma compra online.

No entanto, o facto de adiar o momento da compra pode muitas vezes resultar na eliminação desse produto da lista. O que acontece é que, na realidade, se tratava mais de um impulso do que uma vontade real. Não é por acaso que no marketing de vendas se procura apressar a decisão do consumidor. Assim eliminando o saudável fator de ponderação que o levaria a comprar menos e com mais discernimento.

Vire-se mais para a comunidade

É uma realidade bem portuguesa, a de pensar que temos que estar munidos dos objetos necessários a todas as ocasiões. Mesmo as menos prováveis e as menos frequentes. Deste modo, não existe tanta utilização do espaço público, e dos seus recursos, como em outros países da Europa. Mas, por um momento, deixe-se inspirar por alguns hábitos destes países e reduza a tralha que traz para casa.

A biblioteca pública é um recurso subaproveitado. Há muitas espalhadas pelo país, na sua maioria com oferta variada e atual, inclusive de livros técnicos. Procure a biblioteca mais próxima e veja o mundo de livros e outros recursos – filmes, jogos, séries –, que pode explorar sem ter que comprar.

As lojas de roupa, e outros artigos em segunda mão, proporcionam produtos de boa qualidade a uma fracção do preço. Pelo simples facto de já terem pertencido a outras pessoas antes. Não só conseguirá uma boa peça mais barata, como estará a evitar o desperdício. Estas lojas também são uma opção viável caso, no seu processo de destralhar, se tenha cruzado com objetos que já não lhe são úteis, mas que estão em bom estado e podem valer algum dinheiro. Venda-os e, além de ganhar espaço, ganhará algum dinheiro.

Os grupos de trocas podem ser uma solução para trocar os seus objetos por outros bens, ou serviços, que precisar. Há alguns grupos pelo país. Alguns que se reúnem periodicamente e outros que funcionam exclusivamente online.

Passo a passo, contagiar e não adiar

Há muitas outras opções para desfrutar sem acumular, e muitos caminhos para livrar a casa de tralha. Descubra os seus e encoraje a família a fazer o mesmo. Por exemplo, ensinando os seus filhos desde pequenos a fazer “vistorias” periódicas aos seus objetos.

Além de ser pedagógico para todos, será uma forma de toda a família viver num espaço mais agradável, e motivante, para novos projetos e brincadeiras. Comece por pequenos passos e não adie mais a jornada para uma vida mais livre, leve e entusiasmante.

Inspirações para este artigo:

  • Destralhe a sua casa, Paula Margarido
  • Menos é mais, Francine Jay
  • Arrume a sua casa, arrume a sua vida, Marie Kondo
  • Alegria, Marie Kondo
  • Organize a sua casa, Paulina Draganja

Teresa Fernandes, Fisioterapeuta
Instrutora de Yoga Suspenso, Gyrotonic e Gyrokinesis (aplicação na perda de mobilidade, prevenção de problemas músculo-esqueléticos, pré e pós-parto)

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