Como controlar a ansiedade em quatro áreas da sua vida?

Segundo a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, estima-se que 16,5% dos portugueses sofrem de ansiedade. Há vários fatores que podem desencadear ansiedade, uns mais graves que outros, e dependem muito do contexto de cada pessoa. Uma análise possível está relacionada com o nível de sucesso e felicidade, que a sociedade sugere e impõe como bons, quando comparada com os níveis de sucesso e de satisfação segundo esses critérios, que são muito desfasados para a grande maioria das pessoas.

E isto não é limitado ao que se transmite nos meios de comunicação, é em parte a própria natureza humana. É raríssimo o perfil nas redes sociais que retrata o embaraçoso, a tristeza, as derrotas ou o que não favorece a imagem da pessoa que o criou. O humano tende a comparar-se aos outros e a aferir o seu estado de satisfação de acordo com essa comparação.

Nunca na História houve tanto acesso aos pormenores da vida de tanta gente, devidamente arranjados para mostrar a seleção dos melhores.

  • Pessoas com corpo perfeito e força de vontade férrea, que treinam todos os dias, e ficam satisfeitas com pequeníssimas porções de comida que parece arte saudável
  • Casas imaculadas, limpas e livres de tralha, supostamente mantidas sem esforço
  • Pessoas de sucesso com carreiras de sonho e realizadas no seu trabalho
  • Famílias felizes e funcionais, em férias paradisíacas, ou simplesmente felizes por estarem uns com os outros

Mas quem tem esta realidade na vida? No fundo, baixar expetativas, escolher batalhas e gerir o tempo, ajudam a baixar os níveis de ansiedade.

É nesta premissa que se baseiam estas dicas para reduzir a ansiedade em quatro áreas da sua vida.

Em casa

Aceite um certo nível de caos e desordem. Mais vale aumentar o limiar de tolerância à desarrumação do que viver constantemente em stress.
Pode experimentar iniciar um temporizador de 20-40 minutos, uma vez por dia, para dar a volta à casa e aceitar como bom o que se consegue fazer nesse intervalo de tempo, por exemplo.

Procure ter pausas relaxantes com coisas simples:

  • comer um quadrado de chocolate
  • alongar
  • beber um chá
  • meditar
  • ler um capítulo de um livro

Por oposição a escapadelas pela internet e redes sociais sem de facto desfrutar do tempo livre e do espaço da sua casa.

Defina dois ou três objetivos por dia para a casa, no máximo. Pode delegar um objetivo em cada membro da família, ou mesmo fazer um quadro de tarefas. Parece uma opção rígida, mas ajuda a aliviar a carga mental de decidir o que deve ficar feito a cada dia, acabando por consumir muito mais tempo e energia a fazer coisas desconexas.

No trabalho

A disciplina de limitar a ação é a solução mais difícil, mas também a mais eficaz para lidar com a ansiedade. Reúna todo o seu monge budista interior para lidar com as enchentes de e-mails, ou seja, relativize e tente limitar as tarefas no tempo. O tal temporizador de 20 minutos, uma ou duas vezes por dia, pode funcionar para tratar do essencial, sem desesperar nem perder tempo com pormenores menos importantes.

Decida o “top-3” das tarefas do dia e comece pela mais complicada (ou guarde-a para o período de maior produtividade, caso não seja de manhã). Não deixe que as falsas urgências, tarefas delegáveis ou pedidos de última hora passem à frente do seu “top-3”. É duro e pode ser difícil de encaixar, mas se se treinar a si e aos outros para isso, está a contribuir para um ambiente de maior respeito pelo tempo de todos.

Naturalmente, procure não fazer aos colegas o que não gosta que lhe façam a si. Dê-lhes tempo para cumprirem os seus pedidos e seja diligente com as tarefas partilhadas. Planeie as reuniões e os contactos que tem que fazer, para que sejam o mais breve e eficientes possível. Se estiver ao seu alcance, limite a duração das reuniões e procure manter o foco do grupo no tema em mãos. Faça uma lista de resultados que deverão sair de cada reunião.

Nas relações

Procure manter uma via aberta de comunicação. Os maiores problemas vêm muitas vezes de pequenas questões que não se discutem e deixam arrastar no tempo. Pratique a tolerância (lembre-se do monge budista interior). Foque-se no que pode mudar, ao invés de tentar mudar o outro lado.
Reserve tempo de qualidade com o parceiro, a família, os filhos e os amigos, para poder manter relações saudáveis. Podem ser cinco minutos para um café e uma gargalhada, já todos sentimos o poder revigorante desses momentos.

Modere na exigência consigo e com os outros. Parta do princípio de andarmos cá todos a fazer o melhor possível. Antes de explodir ou de se zangar, tente respirar fundo e arejar um pouco a cabeça. Dê tempo para processar o que se passou e fale quando as ideias estiverem mais claras, sempre com respeito por si e pelo outro.

Nos objetivos

Esta é uma área mais genérica, e pode mexer com as áreas anteriores.

Estes são objetivos que quase sempre nos impomos:

  • comer melhor
  • fazer exercício
  • acabar com vícios
  • manter uma boa imagem
  • ter as marcações e as obrigações em dia

Quem nunca decidiu um destes na passagem de ano, que atire a primeira passa. E que acabam por gerar alguma ansiedade.

Ou porque o tempo passa e os resultados não vêm, ou porque se acaba por prevaricar, ou porque desde tempos imemoriais deixamos caducar o dístico do carro ou falhamos a consulta anual. Mais uma vez, a ordem é simplificar e baixar as expetativas. Se comer decentemente mais de metade do tempo, dê uma palmadinha nas costas. Não pratique o “perdido por cem, perdido por mil” nem enterre a cabeça na areia, mas vá cumprindo dentro do razoável, sem se culpar quando não é perfeito. Nos momentos em que prevarica, deve ser um prazer, não um pecado ou a compensação obscura por qualquer outra coisa (dia mau, muito trabalho, pouco sono, etc.).

No final da vida, os momentos bons, espontâneos, indulgentes e desarrumados, serão muito melhores recordações do que o recorde de respostas a e-mails, a casa arrumada ou uma alimentação irrepreensível. Viva os seus dias, afaste a ansiedade crónica e permita-se momentos felizes.

Teresa Fernandes, Fisioterapeuta
Instrutora de Yoga Suspenso, Gyrotonic e Gyrokinesis (aplicação na perda de mobilidade, prevenção de problemas músculo-esqueléticos, pré e pós-parto)

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