Coisas para pôr em dia antes de engravidar

Há poucas mudanças de vida mais impactantes que passar de casal a família. O nascimento de um filho, especialmente do primeiro, traz grandes alterações na rotina e na mentalidade dos novos pais.

É importante realçar que por mais que se prepare para algo, vai sempre haver coisas que fogem do controlo e que são imprevisíveis. E ainda bem, porque no fim de contas, é também o espontâneo e o imprevisível que dão cor à vida. Por mais que se queira por vezes, é impossível – e pouco saudável –  ter controlo total sobre o que quer que seja. A ideia é reflectir e agir estrategicamente onde é necessário, para simplificar, e não para complicar.

As mudanças acontecerão em muitas áreas: trabalho, casa, finanças, relação do casal e logística das várias rotinas.

A gravidez comporta também alterações ao nível do corpo da mulher, e que mexem com a sua alimentação, a sua relação com o corpo, os seus hábitos de exercício e a sua relação com a saúde em geral.

Tendo tudo isto em conta, o momento em que se planeia uma gravidez torna-se muito propício a esta organização. Nem todas as áreas da vida precisam de passar por uma revolução, mas é importante rever e considerar as opções que se tem.

Este período é também ideal para tratar de assuntos pendentes e agir sobre as áreas que decidiu reestruturar. Aqui ficam algumas ideias a considerar pôr em dia quando planeia uma gravidez.

Saúde e hábitos da mãe

Se tem passado os últimos anos com o mantra “tenho que comer melhor” ou “é desta que faço exercício”, está na altura de implementar essas mudanças. Naturalmente não é boa altura para extremos, como passar de carnívora a vegan ou passar a fazer desportos radicais de uma assentada. No entanto, os pequenos hábitos fazem toda a diferença, e tornam-se mais fáceis de implementar quando pode estar mais centrada em si.

Na alimentação, pode ser altura de experimentar novos pratos, novas formas de confeção e novos alimentos. Mudanças razoáveis, como comer mais vegetais e fruta, beber mais água ao longo do dia e reduzir o consumo de álcool, cafeína ou açúcar podem fazer sentido. Se precisar de orientação, consulte um nutricionista e experimente as mudanças sugeridas.

O exercício deve ser uma parte da rotina, dado que contribui para um corpo saudável, com mobilidade, força, equilíbrio, e reduz o impacto das posturas mantidas durante longas horas ou de gestos repetidos normalmente associados às atividades diárias. Na gravidez, é ainda mais importante exercitar-se porque é uma forma de ganhar mais consciência corporal, aprender a interpretar o corpo e a controlar melhor a forma como se mexe e se posiciona. Este conhecimento, obtido através de qualquer prática desportiva, é muitíssimo útil no processo da gravidez, pós-parto e nos primeiros tempos do bebé, em que o corpo e os esforços físicos se alteram significativamente. Há muitas modalidades por onde escolher, mas se vai iniciar uma atividade nova, faz mais sentido que seja uma que possa manter durante e logo após a gravidez.

Em termos de saúde geral, esta é uma óptima altura para pôr em dia as consultas e procedimentos que tem vindo a adiar. Não só a inevitável ginecologia, mas também a consulta com o seu médico de família e outras especialidades que possa estar a adiar – como o dentista, o oftalmologista ou o dermatologista – para resolver questões antigas ou recorrentes. Se já tem patologias ou toma medicação, é essencial consultar os seus médicos e abordar com eles o plano de engravidar, para perceber as alterações ou ajustes que serão necessários nesse período.

A dois

Esta fase de planeamento da gravidez pode ser muito stressante para um casal, com todas as mudanças que estão prestes a acontecer. Esta é uma boa altura para reforçar a relação, tentar ter mais tempo de qualidade juntos e aproveitar para os pequenos programas românticos que estarão um bocadinho “em espera” após o nascimento da criança.

Podem também discutir formas de encontrar pequenos “balões de oxigénio” depois dos primeiros tempos do bebé, como ter um dia por semana para um programa só a dois, ou uma tarde para cada um sair e espairecer sozinho e tratar dos seus assuntos. É uma boa altura para começar a organizar a rede de suporte – os pais, amigos ou ajuda de fora – para tornar esses momentos uma parte da futura rotina.

Se sentirem que precisam de ajuda para pôr as ideias em dia, ou no processo de aceitação do novo papel de pai e mãe, pode fazer sentido consultar um psicólogo ou terapeuta de casal. Falar com alguém neutro e treinado para ajudar nestes momentos pode ser um passo muito significativo para relativizar e simplificar a vida nos tempos de mudança.

Nesta fase é também importante reforçar a comunicação no casal. Cada um terá as suas ideias quanto à forma de criar e educar os filhos, e é preciso debater e encontrar um bom caminho do meio que represente os princípios de ambos. É nesta fase que se começa a estruturar a “equipa” dos pais, e a criar uma visão de futuro para a família.

Finanças

Por muito que não se seja consumista, por muito que se peça emprestado, não há dúvidas. Ter filhos sobrecarrega bastante o orçamento familiar. Todas as despesas de saúde da mãe e do bebé, o interminável rol de coisas para o bebé, desde as grandes – carrinho, cadeirinha e afins, que podem ser emprestados – às pequenas e consumíveis, como as fraldas, compressas, toalhitas, os custos podem ser bastante elevados. Nada que não seja exequível, mas convém ter um plano para o que aí vem.

Esta é uma boa altura para passar a revista a todos os encargos financeiros e às contas bancárias. Aproveite para rever, e eventualmente renegociar, os créditos que tem, bem como as contas bancárias e contas-poupança. Informe-se e pondere organizar-se neste campo, antes de ter outras mil coisas em que pensar.

Outra tarefa a que deve dedicar-se tem a ver com a parte burocrática que terá de tratar aquando da gravidez e licenças de parentalidade. Informe-se dos seus direitos e dos procedimentos necessários relativamente ao trabalho, à segurança social e afins. 

Há que acautelar possíveis períodos em que a mãe deixe de trabalhar, sobretudo se trabalha num regime com menos apoios à natalidade. Um bom fundo de emergência – idealmente de três a seis meses de despesas fixas, mas um ou dois já será bastante bom – é essencial. A esse, podem acrescentar um fundo para os primeiros tempos do bebé e outro para a mãe, para fazer face a despesas decorrentes da gravidez e pós-parto. Estes dois últimos não precisam de ser grandes contas bancárias, mas a família e os amigos podem ajudar a reunir o “arsenal” necessário. Na fase de planeamento, o que pode ser feito é uma lista de coisas que serão necessárias, bem como tomar nota dos amigos e família que poderão ajudar com coisas emprestadas, por exemplo.

Casa e hábitos de consumo

A casa e a forma como se vive o espaço vai sofrer algumas alterações. Não só terá que ser criado um espaço para o bebé, como o tempo que a família passará em casa será muito maior. Como tal, há que prever os ajustes necessários para acolher o bebé e para tornar a vida em casa mais agradável. Se tem pequenas obras e reparações para fazer em casa, pondere tratar disso nesta altura. Ninguém merece pintar ou esburacar paredes com um recém-nascido em casa.

Esta pode também ser uma oportunidade para rever a eficiência dos seus hábitos de consumo, ou seja, a quantidade de coisas que tem – e dessas quais são realmente necessárias e quais são tralha – e a eficiência na gestão de recursos. Se anda há muito tempo a pensar destralhar, reorganizar o guarda-roupa, ou dar um ambiente mais agradável à casa, avance!

Se há boa altura para reformular a maneira como usa a despensa, a arca e o frigorífico, é esta. A ideia é criar sistemas que simplifiquem a vida, por exemplo, ter uma despensa devidamente abastecida e fácil de repor, uma arca com capacidade e um bom sistema de congelar e identificar comida feita, e um frigorífico bem organizado com produtos que possam transformar-se fácil e rapidamente numa refeição. Há muitos chefs e livros de cozinha que abordam o assunto e dão ideias vencedoras.

Por fim, desfrute desta fase de planeamento e antecipação. Aborde alguns destes temas na sua vida, mas com descontração e numa viagem tranquila de auto-descoberta pessoal e da família que se prepara para formar. Nunca se pode controlar tudo, nem é essa a ideia. Se for preciso, cole este mantra na mesa de cabeceira, para que estas preparações não se tornem numa fonte de stress, mas sim numa agradável expectativa das fases que se seguem. Inspire-se, simplifique e aproveite o melhor que cada momento tem.

Teresa Fernandes, Fisioterapeuta
Instrutora de Yoga Suspenso, Gyrotonic e Gyrokinesis (aplicação na perda de mobilidade, prevenção de problemas músculo-esqueléticos, pré e pós-parto)