Mónica Venda – Vegan e com muito gosto

Responsável com… Mónica Venda

Licenciada em engenharia do ambiente e com uma carreira de 13 anos na área da gestão de resíduos, decidiu mudar de vida por si e pela sua família. Adotou a dieta vegan, participou na escrita de um livro e, nos seus workshops, oferece dicas para uma alimentação mais equilibrada, diversificada e biológica.

 “VeganChee”

A Mónica era profissional no setor de gestão de resíduos, com uma carreira estável. O que a fez largar essa “segurança” e abraçar novos desafios?
De facto nunca é fácil deixar um trabalho de 13 anos. Em 2015, fui fazer exames de rotina e percebi que não estava bem. Fiquei preocupada e pensei que podia ser grave. Decidi ir a uma nutricionista, porque achei que o meu tratamento não passaria apenas pelo convencional. Sempre tive tendência para a cozinha – comia muitos bolos, doces, açúcar, coisas que não devia e estava consciente disso.  Antes de iniciar qualquer tratamento e fazer exames mais rigorosos, decidi dar uma oportunidade a mim própria. Por coincidência conheci a nutricionista Magda Roma, com quem viria a escrever “O Livro das Receitas Vegan”, do qual as receitas são de minha autoria. Na altura fui a uma consulta e foi-me sugerido que o melhor seria alterar a alimentação para uma dieta sem produtos de origem animal, completamente vegan (sem leite, sem ovos, etc.). E assim o fiz, iniciei de imediato essa alteração de dieta alimentar, algum tempo depois comecei a ministrar workshops de culinária vegetariana, e todo este processo juntamente com o livro e com a grande vontade que  tinha à muito de acompanhar mais de perto o meu filho, levou a tomar a decisão de alterar completamente o rumo da minha carreira profissional. Ultimamente, tenho-me dedicado à criação de novos produtos, como é o caso do “VeganChee”, hambúrgueres vegetais, entre outros.

Hambúrgueres de Grão e de Beterraba e Quinoa

Bolachas de tomate seco

Quais foram as principais alterações no seu estilo de vida que marcaram esta mudança?
Tenho uma quinta biológica, certificada onde já cultivava os meus produtos. O gosto por essa área ja vem de trás. Mas não posso dizer que as alterações tenham sido só uma questão alimentar. A intenção foi abrandar um pouco o ritmo e estar mais próxima de casa e da minha família.

Mas posso dizer que em termos alimentares passei a consumir uma maior diversidade de alimentos, desde vegetais, frutas, sementes, leguminosas… as minhas saladas deixaram de ser só alface, cenoura e tomate, para passarem a ser muito mais ricas, a minha alimentação passou a incluir alguns super-alimentos, como por exemplo a matcha (rebentos de chá verde) que é um anti-oxidante, o camu-camu, rico em vitamina C… o meu dia passou a iniciar com um sumo de frutos e vegetais, seguido de um pequeno almoço, almoço, lanches e jantar. Uma das grandes alterações foi precisamente passar a ter a rotina de fazer diversas refeições a tempo e horas.
A verdade é que passado dois meses de eu ter alterado a minha dieta alimentar voltei a fazer exames e já estava muito melhor.

Sumos de morango, beterraba e tomate; cenoura, laranja e papaia; Kiwi, couve, pêra, limão, gengibre e pepino; Couve roxa e melão; Ananás e uvas

Bolo de chocolate chantili e coco

Trufas de Amêndoa e Tâmaras

Semi-Frios de Caju e coco – kiwi, papaia e morango

Procurou implementar estes novos hábitos  dentro de casa, junto dos restantes membros da família? Ou “cada um sabe de si”?
Não foi fácil. A minha mãe, por solidariedade, também mudou a sua alimentação. O meu filho não foi tão fácil mas também não posso dizer que tenha sido difícil.  Ele nunca foi muito de comer carne (o peixe comia melhor), gosta bastante de Tofu, que não lhe dou todos os dias porque sei que não é o melhor. Mas em relação à família diria que a minha obrigação é explicar a influência dos alimentos na nossa saúde e na nossa vida e na vida do planeta, depois a decisão cabe a cada um.

De que formas é possível envolver as crianças nestes desafios? Fazer com que se interessem por estes assuntos, motivá-las, etc.?
A principal dica é a persistência. Não devemos “impingir” nada. Devemos envolver as crianças e ir explicando as alterações, não alterar de forma radical. O leite é um exemplo. Ao meu filho tenho vindo a introduzir aos poucos outros tipos de bebidas vegetais. Percebi que ele gosta de bebida vegetal de coco e vou incentivando essa mudança e adaptado o seu paladar a outros sabores. E os pais devem ter a capacidade de persistir sem obrigar de forma a não criar resistência nas crianças. Há estudos que dizem que uma criança para se habituar a um novo sabor tem de o provar pelo menos 10 vezes para irem adaptando o palato aos novos sabores.

Quais são as principais vantagens de uma alimentação vegan e baseada em produtos mais bio e locais?
São muitas. Desde logo na saúde, desde que seja uma dieta equilibrada e variada. É importante introduzirmos muita cor nos pratos. Cada cor indicia um conjunto de nutrientes com benefícios específicos (as leguminosas, os legumes, a fruta). Mas as vantagens vão além das questões de saúde. Em termos éticos e ambientais faz todo o sentido.  O impacte ambiental da produção de carne é muito superior ao impacte da produção de legume e vegetais.

E o facto de consumir produtos biológicos é também um fator que faz a diferença?
A agricultura biológica é um sistema de produção de alimentos, que combina as melhores práticas ambientais à produção de alimentos de elevado valor biológico, onde se preserva a qualidade do solo, não se utilizam organismos geneticamente modificados e não se utiliza qualquer produto químico de síntese. Os fertilizantes, os corretivos do solo e os produtos fitofarmacêuticos só devem ser utilizados em caso de doença/praga comprovada e estão definidos os que são permitidos pela Direção Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural. Existem diversos estudos científicos que demonstram as diferenças entre os alimentos produzidos de modo convencional e os alimentos produzidos em modo biológico, nomeadamente um estudo financiado pela União Europeia e publicado em 2009, concluiu que os teores de componentes nutricionalmente desejáveis (por exemplo antioxidantes, vitaminas, glucosinatos) são superiores nos produtos de Agricultura Biológica e os teores de componentes nutricionalmente indesejáveis são mais baixos nestes produtos. Outros estudos concluíram também que os alimentos biológicos apresentam teores de nutrientes secundários, vitamina C e matéria seca que são em média, superiores aos convencionais. Portanto, para mim, não há dúvida que consumir produtos biológicos faz toda a diferença.

Como sente a adesão das pessoas a estes novos padrões alimentares, mais saudáveis e baseados no biológico e no vegan?
Quando fiz a minha transição, ainda antes de escrever o livro, comecei a dar workshops de culinária vegetariana. Esse contacto direto com as pessoas tem corrido muito bem e tenho vindo a verificar que as pessoas estão cada vez mais conscientes e têm muito interesse. Não quer dizer que amanhã toda a gente vá ser vegetariana ou vegan, isso seria provavelmente uma utopia, o objetivo é as pessoas perceberem que há muito mais além dos produtos de origem animal e que é possível ficarmos muito bem com tudo o que temos no reino vegetal e que não há necessidade de consumir tanta quantidade de proteína animal.

Chás de Perpétua Roxa, Príncipe, Calêndula e Laranja, Alfazema

Para quem quer alterar os seus hábitos alimentares, às vezes bastam pequenos passos. Que pequenas dicas de comportamento pode oferecer?
É importante saber e procurar alternativas. Por exemplo, os legumes não se resumem só à alface. Nos workshops faço sempre uma salada, geralmente sem alface. As pessoas acham estranho mas está lá tudo: couve, rama de cenoura, rama de cebola, acelgas e muitas outras alternativas…

Outra dica é: faça a sua horta! Produza os seus alimentos. Isso dá outra motivação, e passará a dar outro valor aos alimentos que consome, porque os verá e ajudará a crescer.

Outra boa opção é utilizar sementes. As sementes de cânhamo, rica em proteína, ou as sementes de sésamo rica em cálcio são boas alternativas.

O que ajuda muito também é planear a semana. Com um plano claro passa a ser apenas uma questão de organização. Em minha casa tenho sempre leguminosas congeladas, ervilhas, grão, tudo comprado a granel, lavado, demolhado e cozido. O comprar avulso é uma ótima opção (no Jumbo vendem produtos avulso). E usar e abusar das especiarias e das ervas aromáticas para dar sabor à comida.

As empresas (as marcas) podem ajudar a alterar os hábitos alimentares? O que podem insígnias como o Jumbo fazer para ajudar a mudar práticas e consciências?
O mais importante é a disponibilidade e diversidade da oferta a preços acessíveis e justos quer para o consumidor, quer para o produtor, principalmente ao nível dos produtos vegan e biológicos. Comunicar e transmitir informação também é fundamental. É importante que as marcas tenham uma proximidade com o produtor e transmitam essa proximidade e credibilidade ao consumidor.

Resumo das Dicas:
Persistência e ir habituando o paladar com uma alteração gradual;
Fazer um Plano da Semana;
Fazer compras organizadas, com lista, de acordo com este plano;
Comprar Avulso;
Fazer a sua pequena horta;
Utilizar especiarias e ervas aromáticas para obter mais sabor.